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Camus e o absurdo

Saturday, February 20th, 2010

Para Albert Camus, o absurdo não está nem no homem nem no mundo, mas na relação do homem com o mundo. Dizia o autor de O mito de Sísifo: “No plano da inteligência, posso pois afirmar que o absurdo não está no homem (se semelhante metáfora pudesse ter um sentido), nem no mundo, mas em sua presença comum”.

O absurdo está exatamente no fato de que o indivíduo, de repente, se vê atirado, e tem que viver, num mundo que lhe é absolutamente estranho, contraditório, complicado, indecifrável e tantas vezes irracional. Essa condição absurda do homem torna-o um autêntico estrangeiro, ou seja, alguém exilado num mundo desconhecido e inóspito.

Daí por que Camus concluiu também que o absurdo nasce justamente dos apelos humanos diante do silêncio despropositado do mundo. E, com efeito, se bem observada a circunstância existencial do homem, o que se constata é justamente esse silêncio do mundo nos instantes em que a vida humana perde o seu sentido, na medida em que ela se apresenta como um contínuo de realizações apenas parciais, onde, por exemplo, até mesmo o amor só perdura se for contrariado.

 Assim é que as tristezas, as dúvidas, as alegrias efêmeras, as perplexidades acabam por transmitir mesmo um sentimento de estraneidade no indivíduo. E este sentimento nada mais é do que a sensação de estar exilado num universo que não é o seu. Ou, mais precisamente falando, o sentimento de alienação frente ao silêncio do mundo que não proporciona explicações racionais para as questões humanas fundamentais. E talvez aqui estivéssemos falando daquele conhecido “sentimento de vazio” ou da ausência de sentido para o destino humano, quiçá a própria “náusea” de que nos falava Jean-Paul Sartre.

É curioso como até mesmo a sabedoria popular, sabedoria naturalmente filosófica, sobretudo naquelas ocasiões em que se depara com o absurdo da morte, em especial a morte inesperada e abrupta, costuma expressar o sentimento de estraneidade naquela frase popularíssima, e de algum modo reconfortante: “nós não somos mesmo deste mundo”. Tomemos, para exemplo do absurdo inexplicável, a cena de um avião explodindo na costa de Nova Iorque ou nos arredores de Fernando de Noronha, com centenas de pessoas a bordo despejadas no mar, ou ainda os milhares de corpos empilhados pelas ruas da capital do Haiti. Alguém sempre dirá: é a vontade de Deus; dirá o homem camusiano: é o absurdo. Nessa mesma linha, suponhamos, por exemplo, a perda de um ente querido, no frescor da idade, vitimado por um acidente estúpido, ou o sofrimento de uma criança, a separação dos que se amam, a degenerescência física do homem etc. Há explicação para tanta irracionalidade?

E o que não dizer das guerras, da miséria, da exploração do homem, da degradação ambiental, enfim, da instrumentalização da humanidade em nome da acumulação, do lucro, ou de um suposto progresso científico e de uma mal arrevesada evolução tecnológica? Como explicar, e conviver, com a absurdidade da razão instrumental?

Tais irracionalidades ultrapassam a consciência do homem e escapam a qualquer explicação mundificada. Daí o desespero e a angústia inerentes à condição humana, decorrentes do “silêncio despropositado” de um mundo absurdo e indecifrável, cujo sentido, se houver, não poderá jamais ser alcançado pela consciência humana. Eis, portanto, a inexorabilidade do absurdo que põe a necessidade de encará-lo sem ilusões e sem esperanças, ou seja, sem as esperanças e ilusões que poderiam desviar o homem da verdade.

É precisamente o sentimento meio difuso de exílio, de estraneidade do homem, atirado num mundo inóspito e incompreensível que torna a vida humana uma experiência trágica e absurda. Daí que a reconciliação do homem com o mundo, em Camus, parece se dar apenas com a morte, ou, noutros termos, com a coisificação mundificada do ser humano que, na sua existencialidade viva, “não é mesmo deste mundo” e, portanto, não pode se reconciliar com ele.

Camus exemplificou o absurdo com a tragédia de Sísifo, que na mitologia grega teria sido condenado a carregar um rochedo até o topo de uma montanha, o qual sempre acabava rolando montanha abaixo. A condenação de Sísifo era exatamente descer até a base da montanha, apanhar a pedra, levá-la até o cume para que ela voltasse a rolar ao sopé, quando então ele deveria retomar o seu trabalho de levar o rochedo novamente até o cimo da montanha, sucessiva e indefinidamente. Este trabalho de Sísifo, para o autor de O estrangeiro, representa o absurdo, o irracional da condição humana, já que a humanidade, dia após dia, realiza as mesmas tarefas em direção ao nada.

Mas, Sísifo parece desprezar seu sofrimento ao tomar consciência de sua condição absurda no instante em que Camus afirma: “Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo o sustentasse a esperança de ser bem sucedido? O operário de hoje que trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas com esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo” .

Albert Camus

Friday, January 15th, 2010

Neste último 04 de janeiro completaram-se 50 anos da morte do escritor, jornalista e pensador Albert Camus. Nascido em Mondovi, na Argélia, em 7 de novembro de 1913, e morto em 4 de janeiro de 1960, vítima de um acidente de automóvel em Villeblevin, nos arredores de Paris, o filósofo franco-argeliano foi um dos pensadores mais importantes do século XX. Nascido de pais pobres - o pai morreu muito cedo na Primeira Guerra, em 1914, quando Camus tinha apenas 1 ano de idade, e a mãe, de origem espanhola, era dona de casa – viveu desde menino na casa da avó, em companhia da mãe, do irmão mais velho e de um tio que era tanoeiro e que deveria ensinar-lhe essa profissão. Camus estudou emArgel com muita dificuldade e em 1939 mudou-se para Paris, onde passou a viver durante algum tempo na casa da sogra, em companhia da mulher Francine e dos dois filhos, Catherine e Jean. Vivendo como um autêntico pied-noir (argeliano naturalizado francês), teve de vencer a pobreza e a tuberculose.

E venceu a ambas, tornando-se jornalista, escritor, dramaturgo, filósofo e ganhador do prêmio nobel de literatura em 1957. O autor de O estrangeiro, A peste, O mito de Sísifo, O homem revoltado, Os justos, Calígula e de muitos outros romances, ensaios, novelas e peças de teatro, fez do absurdo da condição humana o ponto de partida para as suas mais profundas reflexões filosóficas.  É, talvez, o filósofo mais lúcido do século XX, conquanto houvesse morrido tão jovem, aos 47 anos, num estúpido (absurdo) acidente de automóvel.

Cinquenta anos depois de sua morte, é impressionante como alguns dos seus conceitos e categorias, como a própria noção de absurdo, de suicídio físico e intelectual e de revolta metafísica e histórica ainda continuam tão atuais. Camus negava peremptoriamente o rótulo de existencialista, mas as suas reflexões acerca da condição humana e das angústias do homem fazem-no, ao lado de Jean-Paul Sarte, um dos mais autênticos representantes do existencialismo francês no século passado.

Albert Camus foi um homem angustiado que percebeu no absurdo um ponto de vista privilegiado para a busca incansável da verdade num mundo crivado de contradições e de desesperança. As experiências absurdas, o “nonsense” da vida humana, o “sem sentido” que é estar num mundo absurdo, a falta de perspectivas, a solidão humana e as angústias daí decorrentes, constituem o universo das reflexões camusianas e, segundo o próprio filósofo, seriam os grandes desafios do homem lúcido.

O pensamento de Camus deve ser entendido para além de preconceitos políticos ou ideológicos, como uma luta jamais abandonada contra qualquer tipo de conformismo. Esse pensador foi realmente um intelectual engajado, um homem do seu tempo, mas um homem singular porque nunca se filiou, apaixonada e sectariamente, a qualquer corrente de pensamento, ideologia, orientação partidária, igreja ou religião. Além do que, como diria Fernando Pessoa, Camus não se socorreu jamais de qualquer espécie de manipanso, de fetiche, de refúgio – esotérico ou material –, para explicar ou até mesmo para se livrar da conhecida angústia existencial que, aliás, atravessou toda a sua vida e toda a sua obra.

Com efeito, é mesmo muito curioso o mecanismo mental desse argeliano naturalizado francês. Na verdade, uma mentalidade caracterizada, especialmente, pela coragem de estar frente a frente com o absurdo, de enxergá-lo em toda a sua plenitude, e de, mesmo diante do inexplicável, manter a lucidez desesperada, sem recorrer jamais a qualquer tipo de misticismo ou suicídio intelectual. Nas palavras de Roberto de Paula Leite, o grande mérito de Camus está em que ele “procurou convidar os homens a pensar, a cair sobre si mesmos na tentativa difícil, mas louvável de encontrar seu próprio destino”.