Para Albert Camus, o absurdo não está nem no homem nem no mundo, mas na relação do homem com o mundo. Dizia o autor de O mito de Sísifo: “No plano da inteligência, posso pois afirmar que o absurdo não está no homem (se semelhante metáfora pudesse ter um sentido), nem no mundo, mas em sua presença comum”.
O absurdo está exatamente no fato de que o indivíduo, de repente, se vê atirado, e tem que viver, num mundo que lhe é absolutamente estranho, contraditório, complicado, indecifrável e tantas vezes irracional. Essa condição absurda do homem torna-o um autêntico estrangeiro, ou seja, alguém exilado num mundo desconhecido e inóspito.
Daí por que Camus concluiu também que o absurdo nasce justamente dos apelos humanos diante do silêncio despropositado do mundo. E, com efeito, se bem observada a circunstância existencial do homem, o que se constata é justamente esse silêncio do mundo nos instantes em que a vida humana perde o seu sentido, na medida em que ela se apresenta como um contínuo de realizações apenas parciais, onde, por exemplo, até mesmo o amor só perdura se for contrariado.
Assim é que as tristezas, as dúvidas, as alegrias efêmeras, as perplexidades acabam por transmitir mesmo um sentimento de estraneidade no indivíduo. E este sentimento nada mais é do que a sensação de estar exilado num universo que não é o seu. Ou, mais precisamente falando, o sentimento de alienação frente ao silêncio do mundo que não proporciona explicações racionais para as questões humanas fundamentais. E talvez aqui estivéssemos falando daquele conhecido “sentimento de vazio” ou da ausência de sentido para o destino humano, quiçá a própria “náusea” de que nos falava Jean-Paul Sartre.
É curioso como até mesmo a sabedoria popular, sabedoria naturalmente filosófica, sobretudo naquelas ocasiões em que se depara com o absurdo da morte, em especial a morte inesperada e abrupta, costuma expressar o sentimento de estraneidade naquela frase popularíssima, e de algum modo reconfortante: “nós não somos mesmo deste mundo”. Tomemos, para exemplo do absurdo inexplicável, a cena de um avião explodindo na costa de Nova Iorque ou nos arredores de Fernando de Noronha, com centenas de pessoas a bordo despejadas no mar, ou ainda os milhares de corpos empilhados pelas ruas da capital do Haiti. Alguém sempre dirá: é a vontade de Deus; dirá o homem camusiano: é o absurdo. Nessa mesma linha, suponhamos, por exemplo, a perda de um ente querido, no frescor da idade, vitimado por um acidente estúpido, ou o sofrimento de uma criança, a separação dos que se amam, a degenerescência física do homem etc. Há explicação para tanta irracionalidade?
E o que não dizer das guerras, da miséria, da exploração do homem, da degradação ambiental, enfim, da instrumentalização da humanidade em nome da acumulação, do lucro, ou de um suposto progresso científico e de uma mal arrevesada evolução tecnológica? Como explicar, e conviver, com a absurdidade da razão instrumental?
Tais irracionalidades ultrapassam a consciência do homem e escapam a qualquer explicação mundificada. Daí o desespero e a angústia inerentes à condição humana, decorrentes do “silêncio despropositado” de um mundo absurdo e indecifrável, cujo sentido, se houver, não poderá jamais ser alcançado pela consciência humana. Eis, portanto, a inexorabilidade do absurdo que põe a necessidade de encará-lo sem ilusões e sem esperanças, ou seja, sem as esperanças e ilusões que poderiam desviar o homem da verdade.
É precisamente o sentimento meio difuso de exílio, de estraneidade do homem, atirado num mundo inóspito e incompreensível que torna a vida humana uma experiência trágica e absurda. Daí que a reconciliação do homem com o mundo, em Camus, parece se dar apenas com a morte, ou, noutros termos, com a coisificação mundificada do ser humano que, na sua existencialidade viva, “não é mesmo deste mundo” e, portanto, não pode se reconciliar com ele.
Camus exemplificou o absurdo com a tragédia de Sísifo, que na mitologia grega teria sido condenado a carregar um rochedo até o topo de uma montanha, o qual sempre acabava rolando montanha abaixo. A condenação de Sísifo era exatamente descer até a base da montanha, apanhar a pedra, levá-la até o cume para que ela voltasse a rolar ao sopé, quando então ele deveria retomar o seu trabalho de levar o rochedo novamente até o cimo da montanha, sucessiva e indefinidamente. Este trabalho de Sísifo, para o autor de O estrangeiro, representa o absurdo, o irracional da condição humana, já que a humanidade, dia após dia, realiza as mesmas tarefas em direção ao nada.
Mas, Sísifo parece desprezar seu sofrimento ao tomar consciência de sua condição absurda no instante em que Camus afirma: “Se esse mito é trágico, é que seu herói é consciente. Onde estaria, de fato, a sua pena, se a cada passo o sustentasse a esperança de ser bem sucedido? O operário de hoje que trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas com esse destino não é menos absurdo. Mas ele só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua condição miserável: é nela que ele pensa enquanto desce. A lucidez que devia produzir o seu tormento consome, com a mesma força, sua vitória. Não existe destino que não se supere pelo desprezo” .