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Albert Camus

Friday, January 15th, 2010

Neste último 04 de janeiro completaram-se 50 anos da morte do escritor, jornalista e pensador Albert Camus. Nascido em Mondovi, na Argélia, em 7 de novembro de 1913, e morto em 4 de janeiro de 1960, vítima de um acidente de automóvel em Villeblevin, nos arredores de Paris, o filósofo franco-argeliano foi um dos pensadores mais importantes do século XX. Nascido de pais pobres - o pai morreu muito cedo na Primeira Guerra, em 1914, quando Camus tinha apenas 1 ano de idade, e a mãe, de origem espanhola, era dona de casa – viveu desde menino na casa da avó, em companhia da mãe, do irmão mais velho e de um tio que era tanoeiro e que deveria ensinar-lhe essa profissão. Camus estudou emArgel com muita dificuldade e em 1939 mudou-se para Paris, onde passou a viver durante algum tempo na casa da sogra, em companhia da mulher Francine e dos dois filhos, Catherine e Jean. Vivendo como um autêntico pied-noir (argeliano naturalizado francês), teve de vencer a pobreza e a tuberculose.

E venceu a ambas, tornando-se jornalista, escritor, dramaturgo, filósofo e ganhador do prêmio nobel de literatura em 1957. O autor de O estrangeiro, A peste, O mito de Sísifo, O homem revoltado, Os justos, Calígula e de muitos outros romances, ensaios, novelas e peças de teatro, fez do absurdo da condição humana o ponto de partida para as suas mais profundas reflexões filosóficas.  É, talvez, o filósofo mais lúcido do século XX, conquanto houvesse morrido tão jovem, aos 47 anos, num estúpido (absurdo) acidente de automóvel.

Cinquenta anos depois de sua morte, é impressionante como alguns dos seus conceitos e categorias, como a própria noção de absurdo, de suicídio físico e intelectual e de revolta metafísica e histórica ainda continuam tão atuais. Camus negava peremptoriamente o rótulo de existencialista, mas as suas reflexões acerca da condição humana e das angústias do homem fazem-no, ao lado de Jean-Paul Sarte, um dos mais autênticos representantes do existencialismo francês no século passado.

Albert Camus foi um homem angustiado que percebeu no absurdo um ponto de vista privilegiado para a busca incansável da verdade num mundo crivado de contradições e de desesperança. As experiências absurdas, o “nonsense” da vida humana, o “sem sentido” que é estar num mundo absurdo, a falta de perspectivas, a solidão humana e as angústias daí decorrentes, constituem o universo das reflexões camusianas e, segundo o próprio filósofo, seriam os grandes desafios do homem lúcido.

O pensamento de Camus deve ser entendido para além de preconceitos políticos ou ideológicos, como uma luta jamais abandonada contra qualquer tipo de conformismo. Esse pensador foi realmente um intelectual engajado, um homem do seu tempo, mas um homem singular porque nunca se filiou, apaixonada e sectariamente, a qualquer corrente de pensamento, ideologia, orientação partidária, igreja ou religião. Além do que, como diria Fernando Pessoa, Camus não se socorreu jamais de qualquer espécie de manipanso, de fetiche, de refúgio – esotérico ou material –, para explicar ou até mesmo para se livrar da conhecida angústia existencial que, aliás, atravessou toda a sua vida e toda a sua obra.

Com efeito, é mesmo muito curioso o mecanismo mental desse argeliano naturalizado francês. Na verdade, uma mentalidade caracterizada, especialmente, pela coragem de estar frente a frente com o absurdo, de enxergá-lo em toda a sua plenitude, e de, mesmo diante do inexplicável, manter a lucidez desesperada, sem recorrer jamais a qualquer tipo de misticismo ou suicídio intelectual. Nas palavras de Roberto de Paula Leite, o grande mérito de Camus está em que ele “procurou convidar os homens a pensar, a cair sobre si mesmos na tentativa difícil, mas louvável de encontrar seu próprio destino”.