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O erro de Deus

Friday, January 29th, 2010

O erro de Deus foi querer criar este mundo, com tudo que há por aqui, de bem ou de mal, de bom ou de ruim. Foi realmente um grande equívoco reinvidicar tudo para Si; assumir a autoria ou paternidade de toda a criação, apresentando-se como um Ser onipotente, onipresente e onisciente que determina até mesmo o momento em que uma folha seca deverá desprender-se da árvore. 

É verdade que ao perceber o seu erro megalomaníaco Deus fez duas tentativas de repará-lo. Primeiro tratou de criar logo o diabo, atribuindo-lhe a autoria de tudo aquilo que há de mal e que não deu certo na criação; depois mandou o seu filho Salvador para nos livrar de toda a maldade do mundo, ajudando-nos a suportar as misérias, as desgraças, as tragédias e o desespero.

Porém, o fato é que nem uma nem outra tentativa acabou dando certo. Com efeito, a criação do diabo para assumir a paternidade do mal foi também um erro por parte de Deus porque é moralmente insustentável atribuir aos outros a responsabilidade pelos próprios deslizes, eximindo-se de qualquer culpa. E o diabo é também uma criação divina que acabou ficando por aqui e continua fazendo das suas, ampliando o mal por cima do bem.  O filho de Deus, por seu turno, também andou por aqui mas falhou na sua missão salvadora e acabou crucificado, propiciando apenas o surgimento de uma grande religião, ao lado de outras duas igualmente grandes (e outras tantas menores), as quais têm dividido os homens que às vezes até se matam em  nome das suas respectivas crenças. 

Até os homens, imperfeitos que são, também se puseram ao trabalho de reparar o erro de Deus, criando ideologias religiosas como o gnosticismo, por exemplo, que imagina a existência de um Deus menor e um Deus maior, ou um Deus bom e um Deus mal, atribuindo a este último a autoria de todas as misérias e mazelas que andam no mundo, na tentativa de isentar de culpa o Deus maior, o Deus bom, o Deus verdadeiro.

Não há dúvida de que, do ponto de vista estratégico, o melhor para Deus seria que Ele se apresentasse como alguém que chegou aqui e encontrou o mundo já pronto e acabado, tal como ele é, criado sabe-se lá por quem, talvez pelo diabo, e se pusesse ao trabalho digno e árduo de consertá-lo. Isso tornaria mais prática a tarefa de Deus e mais lógico os seus argumentos quando tivesse de explicar as mazelas do mundo e o mal que nele vai, sem qualquer embaraço ou constrangimentos, sem nenhuma responsabilidade, sempre na posição de autêntico representante do bem, adversário do mal, Salvador da humanidade. Mas agora parece que é tarde. O jeito é começar tudo de novo.

O acaso

Monday, September 21st, 2009

Um famoso pensador da Antiguidade, não lembro qual, já dizia: “o acaso é rei”. E é curioso notar como o acaso, realmente, parece brincar com a realidade, fazendo e desfazendo, unindo e separando, provocando o certo e o errado, como se reinasse absoluto entre nós. Observe-se como ele junta e separa fatos, une e afasta situações, provoca o encontro e o desencontro das pessoas e, com isso, vai tecendo as mais incríveis coincidências e os mais improváveis acontecimentos. E o faz tanto para o bem quanto para o mal. Quando o acaso age de forma benfazeja, produzindo a alegria, a felicidade, ou às vezes até mesmo salvando vidas, alguém sempre dirá que foi um verdadeiro milagre, operado pelas “mãos de Deus”. Porém, quando a obra do acaso dá para trás e resulta no mal, na tragédia, na desgraça e na dor, costuma-se afirmar: “é coisa do diabo”.

Afinal, o acaso é rei, é Deus ou seria o diabo? Seja lá o que for, o fato é que ele parece ser coisa poderosa, pois as suas artimanhas andam aí a operar tantas e tantas surpresas que chegam a desafiar não só a razão humana, como também as crenças e as verdades científicas, e isto até mesmo no campo das chamadas ciências exatas como a lógica, a física e a matemática.

Na física, por exemplo, já se instalou o chamado Princípio da Incerteza, formulado pelo alemão Werner Heisenberg na década de 30, segundo o qual é impossível determinar exatamente a posição de um elétron no interior do átomo, pois esse elétron se movimenta aleatoriamente, sem uma causa aparente que o fizesse andar por aqui ou por ali. A partir disso, a Mecânica Quântica foi obrigada a admitir que a realidade, pelo menos a microscópica, opera por saltos e é aleatória, devendo conviver, portanto, com o acaso das probabilidades, e não apenas com as leis determinísticas regidas, rigorosamente, por forças previsíveis de causa e efeito.

Foi exatamente essa incerteza da física quântica, e que até hoje ainda não explicou-se, o que deixou Alberto Einstein perplexo, ao ponto de duvidar das suas próprias descobertas sobre a Teoria da Relatividade, proclamando que não era possível que a álea comandasse a realidade, de maneira incerta e imprevisível, pela simples e boa razão de que “Deus não joga dados”.

Veja como o acaso faz das suas peripécias também nos domínios das leis científicas, desafiando e confundindo até os cérebros mais geniais como é o caso de Einstein. Pelo jeito, as ciências ainda terão muito trabalho pela frente nessa áspera tarefa de querer explicar a realidade. E bem que elas poderiam começar por incluir uma hipótese que talvez já não fosse assim tão absurda, qual seja, “ou o acaso é Deus, ou Deus, de fato, anda a jogar dados”. Mas, o problema é que isto seria um prato-cheio para o diabo.