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	<title> &#187; destino</title>
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	<description>o blog do Antônio Alberto Machado</description>
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		<title>O jogo</title>
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		<pubDate>Sun, 08 May 2011 01:27:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>machado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Avesso]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
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		<description><![CDATA[O Professor gostava de abastecer o carro naquele pequeno posto da estrada. Era um posto modesto, com a fachada bem simples, quatro bombas apenas. O proprietário tinha ares de bonomia e aparentava sempre uma calma enorme. Era um sujeito tranquilo que falava pouco e compassadamente. O lugar tinha vista &#8230; <a href="http://blogs.lemos.net/machado/2011/05/08/o-jogo/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Professor gostava de abastecer o carro naquele pequeno posto da estrada. Era um posto modesto, com a fachada bem simples, quatro bombas apenas. O proprietário tinha ares de bonomia e aparentava sempre uma calma enorme. Era um sujeito tranquilo que falava pouco e compassadamente. O lugar tinha vista agradável e dava para uma colina muito verde, pontilhada de coqueiros que se destacavam no horizonte onde o morro, especialmente nos dias de outono, parecia encontrar-se com o azul e branco do céu.</p>
<p>Depois do abastecimento, às vezes o Professor trocava algumas poucas palavras com o proprietário, de quem não sabia nem o nome. Demorava-se alguns segundos contemplando a paisagem e saía sem pressa, calmo também. Toda vez que recebia pelo abastecimento, o dono do posto conferia lentamente o dinheiro ou o cheque, com uma expressão indiferente no rosto. Em seguida, num ligeiro movimento de cabeça, como se dissesse que estava tudo certo, soltava sempre a seguinte frase: &#8220;feito o jogo&#8221;.</p>
<p>Econômico nas palavras, o Professor saía pela estrada em silêncio, e por alguns momentos aquela frase ficava martelando no seu cérebro, pois ele a tinha ouvido muitas vezes de seu avô, um sujeito também tranquilo, suave, generoso. Aquela frase antiga, inesperadamente, fazia ressurgir diante de si o avô e os velhos tempos de menino. E era decerto por isso que o dono do posto, embora jovem, ao redor dos quarenta anos talvez, parecia mais velho aos olhos do Professor.</p>
<p>Cada vez que parava no posto, contemplando a colina com os seus coqueiros espetados no horizonte, o Professor se deixava repousar por alguns momentos. Algumas vezes soltava a lembrança, sem pressa, revivendo as inúmeras paradas que já havia feito ali naquele local, naquele mesmo posto, em diferentes momentos da sua vida, quando era outro talvez. A frase do dono tinha esse efeito, de transportá-lo no tempo, de evocar as recordações do passado e da sua terra agora distante, de lembrar o avô que já não existia mais, projetando-o momentaneamente para fora da rotina.</p>
<p>Às vezes, como se fizesse um rápido balanço, saía pensando também no passado mais recente, na sucessão dos fatos e nos diferentes momentos em que havia parado para abastecer naquele posto, como se o local fosse uma espécie de testemunha das mudanças por que passara ao longo do tempo. Era como se ele, instantaneamente, se visse diante do próprio destino, observando-se a si mesmo nas diversas situações de vida em que já havia parado naquele lugar nesses anos todos. As esperanças, as dúvidas, as incertezas. Fazia então uma rapidíssima viagem pelo tempo, reavivando na memória alguns trechos da paisagem que tinham ficado para trás, empoeirados, esquecidos ao longo do caminho. </p>
<p>Podia parecer estranho, mas a frase do dono do posto tinha esse efeito sobre o espírito do Professor, possivelmente porque ele a teria ouvido inúmeras vezes na infância, quando então era muito apegado ao avô que a repetia frequentemente nas conversas com os seus fregueses.</p>
<p>Muita coisa havia mudado, muitos anos se passaram, umas coisas se perderam, outras chegaram. As mudanças levam e trazem. Ele próprio percebia que já não era mais o mesmo. E a parada no posto propiciava sempre aquela rápida reflexão. Estimulava as lembranças do Professor e às vezes trazia uma certa nostalgia, daquelas que não chegam a incomodar, até porque era preciso pegar logo a estrada, pois os compromissos estavam à espreita. A parada no posto, o ambiente tranquilo e a vista bucólica funcionavam como uma trégua no corre-corre diário do Professor, uma espécie de descanso metafísico, quem sabe.  </p>
<p>Um dia, depois das longas férias de final do ano, ao retornar às aulas da universidade, o Professor parou no antigo posto para o abastecimento e estranhou a fachada nova. Havia quatro bombas a mais, o posto estava inteiramente reformado, ampliado, cheio de anúncios em cores vivas, enfim, não era mais o mesmo. O frentista o atendeu cordialmente, mas já foi avisando que ali não aceitavam cheques nem cartões, apenas dinheiro. O Professor perguntou por quê, e o frentista, com uma cordialidade estudada, disse que o posto tinha agora um novo dono, uma nova administração e as regras haviam mudado.</p>
<p>O Professor quis então saber notícias do antigo dono; se ele havia mudado o seu próprio estabelecimento para outro lugar, se continuava no mesmo ramo de combustíveis, enfim, o que estaria fazendo depois de ter vendido o posto. Mas o frentista não sabia de nada, disse que não tinha nenhuma notícia a respeito do ex-proprietário. Na verdade, nem o conhecera.</p>
<p>Surpreso, o Professor percebeu que não adiantava continuar com o interrogatório. E também, para quê? Ele próprio nada sabia sobre o dono do posto, nem sequer o nome dele sabia. Afinal, não o conhecia também. E, a bem dizer, o posto parecia ter mudado para melhor. Estava mais amplo, mais colorido. Mesmo assim, lamentou. É certo que não havia motivo para tanto, mas na verdade experimentou até uma ligeira tristeza, uma pálida melancolia. Era como se tivesse perdido alguma coisa. Sentiu que nunca mais poderia voltar ali como antes. Algo havia mudado em definitivo, essencialmente.</p>
<p>Resignado, mandou abastecer o carro e pagou o frentista, com notas de contado. O funcionário conferiu rapidamente o dinheiro, agradeceu a preferência e mordiscou aquele protocolar &#8220;volte sempre&#8221;. O Professor, acionando vagarosamente o veículo, saiu pela estrada, pensativo, como se mirasse a paisagem da colina pela última vez. E em voz alta, de si para si, disse mecanicamente: &#8220;feito o jogo&#8221;.</p>
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		<title>Autoajuda e subliteratura</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Jan 2011 18:11:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>machado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Avesso]]></category>
		<category><![CDATA[auto-ajuda]]></category>
		<category><![CDATA[destino]]></category>
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		<description><![CDATA[O comércio dos livros de autoajuda constitui hoje um importante filão do mercado editorial. Procurados por pessoas de todas as faixas etárias e camadas sociais, esses livros vendem como nunca. E há verdadeiros best sellers por aí. Aliás, eles já se espalharam pelo mundo &#8230; <a href="http://blogs.lemos.net/machado/2011/01/13/autoajuda-e-subliteratura/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O comércio dos livros de autoajuda constitui hoje um importante filão do mercado editorial. Procurados por pessoas de todas as faixas etárias e camadas sociais, esses livros vendem como nunca. E há verdadeiros <em>best sellers</em> por aí. Aliás, eles já se espalharam pelo mundo a fora, rompendo as fronteiras da língua e as diversidades culturais, com sucesso de vendagem nos quatro cantos do planeta. Há obras traduzidas em diversos idiomas, tanto no primeiro quanto no terceiro mundo.</p>
<p>Como se sabe, os livros desse gênero, invariavelmente, contêm conselhos, respostas, orientações e até exemplos de como enfrentar as dificuldades da vida, como superar as dores física e moral causadas pelas doenças, pela ansiedade, pelo estresse, pelas perdas etc. De modo que os seus leitores buscam o remédio certo ou a fórmula ideal para superar as próprias angústias, as desilusões, o desespero e outros males do espírito. A proposta dos livros de autoajuda é realmente auxiliar na autocompreensão do indivíduo, na identificação das soluções para os seus problemas e até mesmo na busca de sentido para a vida, preenchendo, assim, algum vazio existencial.</p>
<p>É certo que há muitas orientações importantes, muitos exemplos admiráveis e até experiências que auxiliam realmente no enfrentamento dos problemas e agruras da vida. E é talvez por isso, por conter orientações e conselhos úteis, que os livros de autoajuda fazem tanto sucesso num mundo incompreensível, cheio de dúvidas e de ameaças, onde o homem se vê atirado, em completo desamparo, podendo contar apenas consigo próprio.</p>
<p>A crítica literária é impiedosa com esse gênero de livros, qualificando-o como uma subliteratura ou paraliteratura. Dizem os críticos que os livros de autoajuda funcionam apenas como bálsamo para as angústias dos seus leitores. Entorpecem a consciência e não estimulam a capacidade humana de entender os problemas humanos e suas causas, impedindo o homem de pensar a própria existência por si próprio, com autonomia e lucidez, por mais que isto seja doloroso.</p>
<p>Penso que os livros desse gênero, apesar das intenções acima de qualquer suspeita, podem ter mesmo o efeito nocivo de afastar o indivíduo da sua própria circunstância, de impedir que ele compreenda com clareza a sua condição existencial e os seus problemas, impedindo-o também de fazer escolhas autênticas, de se colocar no mundo com autonomia e responsabilidade, enfim, desviando o homem de sua própria história. A renúncia à lucidez e à própria realidade é uma espécie de fuga que Camus considerava um verdadeiro &#8220;suicídio intelectual&#8221;.</p>
<p>Mas há um outro gênero de literatura que guarda um certo parentesco com os livros de autoajuda e que também produz essas consequências nefastas, fazendo o mesmo sucesso literário. Há livros que realmente não induzem o pensamento, não estimulam a lucidez nem a capacidade de levantar as questões humanas fundamentais, servindo apenas de passatempo, mera distração. Nesse gênero, inscrevem-se, por exemplo, o fenômeno de Harry Potter e o livro de Don Brown (<em>O código Da Vinci</em>), ambos lidos por crianças e adultos ao mesmo tempo, num sinal, talvez, de que esse tipo de literatura pode mesmo produzir a infantilização do homem.</p>
<p>Na medida em que a subliteratura contribui para afastar o homem de sua própria realidade, apresentando um mundo ideal e fantasioso, cheio de soluções mágicas que preparam um final feliz, produz um efeito estupefaciente que impede a emancipação humana. Inverte a estratégia de Nélson Rodrigues e, ao invés de apresentar &#8220;a vida como ela é&#8221;, apresenta apenas &#8220;a vida como ela deveria ser&#8221;, ou seja, ideal, portanto, irreal.</p>
<p>É dessa maneira que a subliteratura, com a sua capacidade de distrair a razão, vai produzindo aquilo que Heidegger chamava de &#8220;esquecimento do ser&#8221; ou &#8220;vida inautêntica&#8221;, e que Sartre considerava uma espécie de má-fé, ou seja, o esquecimento da própria condição humana. A consciência dessa condição, de sua miséria e de seus limites, por mais desesperador que isso seja, parece ser a única via pela qual o homem poderá construir uma existência autêntica, com riscos e responsabilidades, estabelecendo a plena autonomia sobre o seu próprio destino.</p>
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		<title>O destino</title>
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		<pubDate>Sat, 21 Nov 2009 06:23:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>machado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Avesso]]></category>
		<category><![CDATA[destino]]></category>
		<category><![CDATA[determinismo]]></category>
		<category><![CDATA[livre-arbítrio]]></category>

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		<description><![CDATA[As opiniões se dividem entre os que acreditam e os que não acreditam no destino. Para alguns, tudo aquilo que acontece no mundo, acontece porque teria de acontecer mesmo, já estava pré-determinado pelo &#8220;destino&#8221;, como se fosse o resultado fatal de uma &#8220;lei de causa &#8230; <a href="http://blogs.lemos.net/machado/2009/11/21/o-destino/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As opiniões se dividem entre os que acreditam e os que não acreditam no destino. Para alguns, tudo aquilo que acontece no mundo, acontece porque teria de acontecer mesmo, já estava pré-determinado pelo &#8220;destino&#8221;, como se fosse o resultado fatal de uma &#8220;lei de causa e efeito&#8221;. Para outros, no entanto, não existe um destino pré-estabelecido, fatal e determinístico, pois tudo quanto acontece na vida do homem seria produto do seu agir intencional, do seu livre-arbítrio, das livres escolhas de cada um, ou, quando muito, obra do acaso.</p>
<p>Porém, no fundo, essa discussão parece não ter sentido nenhum. Realmente, tudo o que acontece, simplesmente acontece porque aconteceu, e, por isso mesmo, trata-se de um fato histórico e pronto. A única realidade é aquela que de fato ocorreu e que passou a existir, seja lá qual for o motivo que a determinou. Não há, portanto, uma alternativa à realidade que já se consumou. O que é real é um fato consumado que aniquilou a possibilidade de ser um fato diferente, ou de se constituir numa outra realidade.</p>
<p>É claro que tudo o que acontece de uma determinada maneira poderia ter acontecido de maneira diferente. Mas, aquilo que não aconteceu, simplesmente não existe. E se não existe não poderia ser obra de nada nem de ninguém. Logo, só se pode falar em destino, em livre-arbítrio ou em acaso depois que os fatos acontecerem, depois que eles se tornarem realidade. Por isso, não tem sentido, nem por quê, falar-se que a realidade e os fatos, que sempre acontecem numa ou noutra direção, seriam obra disto ou daquilo, pois tudo o que é, é, e pronto. O destino constata-se depois.</p>
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