A vida inteira, o doutor Damião Soares sustentou o ponto de vista de que o povo brasileiro é preguiçoso e não sabe votar. A dureza com que sustentava tais opiniões contrastava inteiramente com a brandura natural do seu caráter, com o seu temperamento tranquilo e com o jeito educado, lhano, afável.
Médico respeitado, ao redor dos quarenta anos de exercício da pediatria, o doutor Damião havia atendido várias gerações de moradores da cidade. Era raro o dia em que não encontrava alguém que na infância havia passado pelo seu consultório, pelo seu atendimento dedicado, atencioso, quase paternal. Tinha o respeito e também a admiração de todos. Ao longo de muitos anos, foi o médico mais requisitado na cidade e a sua fama se espalhava também pela região.
Mas, quando o assunto era política ou o futuro da nação, o doutor Damião Soares tinha um posicionamento duro, categórico. Emprestava um certo cunho científico e sociológico ao seu discurso e dizia que o brasileiro é preguiçoso porque herdou a indolência do negro e do índio; e não sabe escolher os seus representantes porque é analfabeto, ignorante, sem escola.
Dizia que a maioria do povo não gostava do trabalho, não tinha ambição e nem iniciativa. Para ilustrar a sua opinião, costumava lembrar um episódio que lhe acontecera certa vez quando um mendigo pediu-lhe uma esmola. Como o doutor Damião era contrário à esmola que se dá na rua, disse ao mendigo que lhe daria mais do que um simples trocado, daria o equivalente a um prato de comida se ele lhe lavasse o carro. O pedinte voltou-lhe as costas e foi embora, então o doutor Damião concluiu que o povo não quer mesmo trabalho, prefere o ganho fácil, ainda que seja um ganho humilhante.
Dizia também que o eleitorado do Brasil nunca soube votar, pois não tinha ideologia nenhuma. Entregava-se facilmente ao clientelismo e muitos chegavam até a vender o voto, trocando-o por qualquer coisa, às vezes até por um simples par de sapatos. Costumava citar aquele presidente cassado para dizer que o povo não sabia mesmo votar. Se bem que, justificava ele, o tal presidente foi um grande equívoco, mas era a única alternativa que o povo tinha então para evitar que o sindicalismo comunista tomasse conta do Brasil.
O doutor Damião Soares decididamente não gostava de política. Apesar da sua popularidade, nunca cogitou a ideia de candidatar-se a algum cargo eletivo na cidade. Convite não lhe faltou. Agora, porém, estava às voltas com a candidatura do filho que fora convencido por alguns políticos locais a disputar a eleição para prefeito. Asseguravam-lhe que o prestígio do pai e a sua simpatia pessoal seriam suficientes para a vitória nas urnas.
A princípio, o doutor Damião resistiu, não queria ver o filho metido em política tão cedo. Achava que ele deveria dedicar-se exclusivamente à profissão, pois era preciso consolidar a clientela. Um dentista se faz da assiduidade no consultório, da presença e da presteza com que atende os seus pacientes. Achava que o filho não deveria, portanto, ocupar-se com outros afazeres, muito menos com a política, antes de se firmar na profissão.
Mas, a aproximação das eleições, a euforia dos correligionários, as manifestações favoráveis de grande parte dos eleitores, a maioria talvez, fizeram com que o doutor Damião, mesmo contrariado, consentisse pouco a pouco na candidatura do filho. Deu a este, inclusive, um apoio tímido, desajeitado, de quem não tinha mesmo nenhuma intimidade com a política e com os políticos.
Apesar desse envolvimento casual com a política e com as eleições locais, o doutor Damião Soares seguia sustentando as suas polêmicas teses sobre o povo brasileiro. Com a convicção dos que encontraram a verdade, ele não se cansava de dizer que o grande mal do país era a preguiça e a ignorância do povo que não gostava do trabalho e não sabia votar.
Porém, um aliado de seu filho, preocupado com a repercussão negativa que as opiniões do pai poderiam ter no eleitorado, tentou convencer o doutor Damião Soares de que o povo, no fundo, sabia votar, até diziam que “a voz do povo é a voz de Deus”. Como o doutor Damião se mantivesse irredutível, o correligionário do filho aconselhou-o apenas a não externar aqueles seus conceitos publicamente, pelo menos enquanto durasse a campanha. Ele ficou meio contrariado, nunca foi homem de esconder as próprias opiniões, mas admitiu que o seu julgamento sobre o povo brasileiro poderia mesmo melindrar o eleitorado da cidade e, com isso, prejudicar a campanha do filho. Desde então, absteve-se de fazer quaisquer comentários sobre o Brasil e sobre a índole de seu povo.
A verdade é que o doutor Damião Soares andava mesmo incomodado com a candidatura do filho. Tinha receio quanto ao resultado das urnas, pois uma eventual derrota seria muito decepcionante, quase uma humilhação, para ele e para o candidato. E até a vitória lhe inspirava cuidados. Preocupava-se muito com o desempenho do filho à frente da prefeitura. Considerava-o bastante jovem ainda. Tinha que amadurecer mais antes de assumir tamanha responsabilidade. Além do que, conhecia aquela desconfortável inconstância no temperamento do menino. Conhecia-lhe as indecisões. Lembrava-se das dificuldades que o rapaz teve na escola, do quanto penou para se formar e do desânimo com que se iniciara na profissão. Admitia tudo isso apenas secretamente. Porém, às vezes tinha a impressão de que tudo não passava de cuidados excessivos de sua parte ou simples preocupações de pai.
Enfim, a candidatura do filho tirou o sossego do doutor Damião Soares. Quanto mais se aproximava a eleição, mais ele se recolhia. Andava de fato muito recluso, em silêncio, num chocante contraste com a euforia da mulher e do filho candidato; estes, animadíssimos com o resultado favorável das últimas pesquisas.
Depois de uma campanha longa e desgastante, com acusações recíprocas em que os adversários destacavam a inexperiência, o elitismo e a alienação política do filho do doutor Damião Soares, afinal, chegou o dia da eleição. O médico, acompanhado da mulher, votou logo pela manhã, cumprimentou cordialmente alguns eleitores e ex-pacientes que encontrou pelo caminho, e recolheu-se à casa. Há muito tempo que não experimentava tanta apreensão. Encontrou-se rapidamente com o filho na hora do almoço, abraçou-o longamente sentindo um aperto na garganta e disse apenas “coragem, garoto, vai dar tudo certo”.
A votação se arrastou até o final da tarde. O tempo, caprichosamente, não passava de jeito nenhum e uma ansiedade traiçoeira começou a tomar conta de todos. O doutor Damião preferiu aguardar a apuração em casa, ao lado da mulher, da filha mais velha e do genro, enquanto que o filho permanecia no comitê de campanha, junto dos companheiros. O pai do candidato não conseguia ler os jornais nem parava diante da televisão. Tentou despistar o nervosismo brincando com o cachorro, mas sem sucesso. No começo da noite, alguém lhe telefonou avisando que a apuração estava começando e que em duas horas já teriam o resultado.
Menos de duas horas depois, o doutor Damião ouviu o estouro de um foguete, seguido de uma sequência interminável de estrondos. A mesa apuradora havia acabado de proclamar a vitória oficial do doutor Luís Augusto de Vergueiro Soares. Explodiu a festa. O povo invadiu a casa do candidato. O doutor Damião estava visivelmente feliz, mas sem euforia. Continuava ainda um pouco circunspecto, tenso, demonstrando enorme cansaço. O seu sentimento era mais de gratidão do que de alegria. Em meio a tantos sorrisos, lágrimas e gritos de vitória, ele recebia abraços calorosos, votos de sucesso e confiança, como se fosse o eleito. Quando finalmente pôde abraçar o filho, chorou.
No auge da festa, um dos correligionários do prefeito vitorioso puxou o doutor Damião Soares pelo braço e disse-lhe baixinho, ao pé do ouvido, “eu não falei, doutor Damião, o povo sabe votar”. E ele, pensativo, balançou afirmativamente a cabeça dizendo “é, pode ser, quem sabe”.