O tempo

November 17th, 2009 by machado

Costuma-se dizer que tudo quanto existe, existe no tempo, ou durante algum tempo. Está errado. O correto seria dizer que tudo quanto existe, existe com o tempo, e não no tempo. É exatamente isso o que comprovou a teoria da relatividade de Einstein quando descobriu que o tempo é um dos elementos que integram a própria realidade, e não apenas o vácuo onde essa realidade se manifesta.

Assim, tudo quanto existe, inclusive o homem, só existe e só pode ser compreendido levando-se em conta a dimensão ou os limites do tempo. E se tudo o que existe, e nós próprios, temos uma dimensão temporal, então deve ser por isso que somos passageiros, efêmeros, finitos… como o tempo.

Mas o tempo seria finito? Ele passa, e continua passando, e ao passar permanentemente não acaba nunca. Perpetua-se como presente, passado e futuro. Tudo tem um limite com o tempo - a realidade material e também o homem -, mas o próprio tempo parece não ter limite nenhum, parece ser infinito. Além de infinito, dizem que o tempo tudo pode. E além de onipotente, ainda seria o “senhor da razão”.

Será que o tempo é a única dimensão eterna da realidade, ou a única coisa que permanecerá depois de tudo? O tempo seria Deus?

Tudo flui

November 16th, 2009 by machado

Desde a Antiguidade, o filósofo pré-socrático, Heráclito de Éfeso, já dizia: tudo flui, ou, na fórmula grega, “panta rhei”. Com isto ele queria dizer que a realidade está em parmanente mudança. Assim, segundo Heráclito, um homem não conseguiria entrar duas vezes no mesmo rio, porque, ao entrar e sair, na segunda vez o homem já não seria exatamente o mesmo, nem o rio teria as mesmas águas. O filósofo concluia, então, que “a única constante é a mudança”, afirmando que essa mudança se dá dialeticamente, ou seja, pela ação de forças contrárias entre o real e o não-real.

Pois bem, apesar dessa constatação acerca da realidade, e que até hoje não desmentiu-se, o fato é que o homem (também ele uma parte integrante da realidade), segue com os seus anseios de establilidade, de certeza, de previsibilidade, de permanência, e até mesmo de eternidade, em completo desacordo com a constante mudança do mundo.

Deve estar aí a origem das várias angústias e até do desespero com que muitas vezes lidamos com a realidade. O filósofo Albert Camus, agora no século XX, diria que está exatamente nisso o absurdo da condição humana: nos anseios de permanência e eternidade do homem em face do “silêncio despropositado” do mundo, que segue mudando, indiferente a esses anseios humanos. E parece que não há mesmo nenhuma saída para esse absurdo camusiano, pois o mundo só pode continuar existindo por força da mudança, justamente a mudança que implica a efemeridade e a finititude de tudo, inclusive a do homem.

A vida, o amor e o tempo

November 11th, 2009 by machado

A vida e o amor têm muita coisa em comum. Dizem que ambos são belos, sublimes, sagrados. Pode-se dizer até que a vida, quase sempre, é o resultado do amor. Mas há ainda uma outra identificação entre os dois que é especialmente marcante, ou seja, o amor e a vida pretendem ser eternos. E até se poderia dizer que são mesmo, parafraseando o imortal Vinícius de Moraes, mas só enquanto durarem.

Essa é a questão: o belo, o sublime, o sagrado e até a eternidade somente têm sentido se levarmos em conta o fator tempo, ou seja, a ideia de duração. Mas o próprio tempo é um limite, e o problema é que todo limite tem algo de incompreensível e de absurdo. Veja como o limite da vida pode estar logo ali, numa doença incurável, num acidente fatal, ou pode estar lá longe, na velhice dolorosa e decrépita, mas, em qualquer caso, sempre será uma expressão do absurdo: tanto a morte prematura quanto a lenta degeneração.

É curioso como o limite do amor parece seguir, mais uma vez, um destino semelhante ao limite da vida, pois ele pode estar logo ali na separação brusca e inevitável, ou mais longe, na ação prolongada e corrosiva do tempo, que põe a indiferença no lugar do desejo.

O segredo parece estar, portanto, exatamente no tempo. No tempo da vida, no tempo do amor e no tempo do limite. Mas, e o tempo, o que seria?  Se não encontrarmos uma boa resposta, podemos ficar ainda com o velho Horácio: carpe diem, na vida e no amor!

Mas, é importante notar, o carpe diem horaciano não esclarece nada, apenas suspende o raciocício sobre qualquer possível explicação para o absurdo da condição humana, e talvez seja até uma espécie de alívio, ou de compensação, para esse absurdo.

A explicação deve estar mesmo no tempo, que é uma das dimensões da realidade, segundo a física de Einstein. E talvez seja justamente por isso, por ser uma das quatro dimensões do real, por ser parte integrante de tudo quanto existe, que o tempo tornou a realidade algo passageiro, relativo, fugidio… como ele próprio.

Por que ter um blog

November 10th, 2009 by machado

Há muitas razões para se ter um blog. De  fato, é uma maneira de se ir familiarizando com a web, com a teia, com a rede, com a internet, ou, se quiserem, com o universo quântico/eletrônico (ciberespaço) do qual ninguém escapará; o blog estimula o ato de escrever toda vez que se faz um post; trata-se de uma escrita sem compromisso, lúdica talvez, em prosa ou em verso; e, como disse o José Saramago, por meio dos blogs pode-se tomar posições sobre o que quer que seja.

Mas há ainda outra razão muito peculiar. É que blogs e posts podem funcionar como uma espécie de “testamento”, ou “inventário” das nossas ideias, dos nossos sentimentos, e até da maneira como percebemos o mundo. De forma que, tal como nos inventários e nos testamentos, os posts permanecem atestando a “herança” de ideias e sentimentos dos seus autores até mesmo post mortem - com perdão do trocadilho quase irresistível.

 E há também a vantagem de que os blogs não têm a fixidez dos trabalhos impressos, logo, os seus autores poderão ir retificando e retocando os posts que expressam as suas ideias, sentimentos e percepções de forma ágil, a qualquer momento, e onde quer que estejam. Assim,  nos blogs como na vida, pode-se ir pensando, sentindo, opinando, escolhendo e… mudando.

O velho da praça

November 10th, 2009 by machado

Num fevereiro distante, o moço observava o olhar meio perdido do velho que estava sentado num banco de praça. Era um olhar sem expressão nenhuma, de quem fixa o nada sem qualquer interesse, alheio a tudo. O semblante do velho parecia cansado, havia nele alguma coisa de desiludido. O seu rosto, vincado pelo tempo, exprimia uma espécie de resignação, como se estivesse apenas cumprindo, resignadamente, o inelutável destino de ver o tempo passar. Estava ali, como disse Rubem Alves certa vez, “numa presença de quem já está se despedindo”. O velho parecia triste.             

De fato, a sua expressão revelava um certo desencanto, talvez aquele desencanto dos que já olharam tantas vezes para o mesmo lugar sabendo que não veriam nada de novo. O rapaz ficou impressionado com aquele ar de indiferença e lembrou do personagem de Aluísio de Azevedo, em O cortiço, que no final da vida “olhava ao seu redor com a indiferença dos que já não esperam nada dos outros nem de si mesmo”. A expressão do velho era a de quem já podia antever o final do caminho, e talvez não visse muito sentido nem no caminho que havia percorrido até ali nem no que ainda estava por percorrer.

Tantos fevereiros depois, às vezes o moço ainda se lembra do velho da praça, mas lembra-se agora com semelhante cansaço no olhar, um vago desencanto, e a certeza da inutilidade de tudo.

Canta Caetano, canta…

November 9th, 2009 by machado

Ao afirmar, numa entrevista, que o Presidente Lula é “grosseiro”, “analfabeto” e “cafona”, o cantor Caetano Veloso cometeu certamente uma injúria, mas com isso denunciou-se a si próprio, revelando, de uma só vez, todo o seu preconceito político, o seu ódio de classe e uma enorme arrogância elitista.

É uma pena porque, apesar da admiração e simpatia que Caetano Veloso sempre nutriu por um dos mais retrógrados políticos baiano, o cacique Antônio Carlos Magalhães, muita gente acreditava que o ídolo da Tropicália ainda mantivesse alguma consciência política, e que jamais traísse aquele seu estilo diáfano, melífluo, tão característico da sua voz e tão próprio dos poetas.

Mas o fato é que o cantor baiano foi de uma violência verbal inesperada no seu ataque à pessoa do Presidente. Não soube sequer disfarçar o preconceito nem a própria egolatria. Foi infeliz e deve estar em apuros, pois a sua sensibilidade decerto que poderá incomodá-lo por algum tempo. É que a sensibilidade natural dos poetas não tolera grosserias desse tipo.

Cadê o risco-Brasil?

November 9th, 2009 by machado

Antes de o Lula chegar à Presidência da República, os economistas da direita viviam dizendo que a eleição de um candidato de esquerda, com o histórico do candidato do PT, iria elevar o chamado risco-Brasil. A elevação desse “risco”, diziam os economistas com aquele ar de ciência, poderia inviabilizar novos investimentos financeiros no País, e até mesmo afugentar os investidores estrangeiros que ainda andavam por aqui, com os seus negócios e as suas finanças.

Esse tal risco-Brasil era um terror. Os economistas se benziam só de pensar no perigo que a eleição do Lula poderia representar para a economia e para o crescimento econômico do País. A mídia conservadora não passava um dia sequer sem alardear esse perigo, e a chamada “opinião pública”, levada por essa mídia, já andava discutindo o famoso risco-Brasil na rua, nas escolas, nos lares, nos bares e nos botecos.

Depois de duas eleições e dois mandatos, depois do desempenho do Governo Lula na área social, política, econômica e, inclusive, no campo da política externa, com a popularidade do Presidente explodindo acima dos 85%, nunca mais se ouviu falar naquela ameaça catastrófica que os cientistas e os doutores deste País tanto temiam. Cadê o risco-Brasil? Parece que virou lenda.

Velhice?

November 8th, 2009 by machado

Vou dizer aquilo que toda a gente já sabe: a vida é bem mais leve quando se é jovem! Quem ainda não andou muito sobre o planeta ainda não viu nem sofreu muita coisa. As desilusões, se as houve, foram ainda poucas. O jovem não carrega muitas lembranças  nem tanta saudade. Na juventude, as marcas não são definitivas e são poucos os desenganos. Quando se é jovem a sensação é de que a vida caminha entre sonhos e luzes, como se fosse uma festa que terá um desfecho grandioso, apoteótico. Não se teme tanto o futuro, por isso a coragem e a ousadia são maiores. Os compromissos e as responsabilidades não têm lá grande importância, são secundários.

E por falar em ousadias, responsabilidades e compromissos, ando meio desconfiado quanto a dois sintomas que eu não tinha e que me vêm incomodando: estou ficando muito mais pontual nos compromissos e venho desenvolvendo também uma desconfortável “noção de perigo”. Isso pode ser bom, mas não é um bom sinal!

Tortura

November 6th, 2009 by machado

É de estarrecer, mas no ano passado (2008) a agência Nova S/B, em parceria com o Ibope, realizou uma pesquisa sobre a tortura no Brasil e constatou que 26% dos brasileiros aprovam essa prática medieval nas investigações criminais. Isto é, um em cada quatro brasileiros aprovam a tortura. E para piorar, constatou-se também que 40% dos brasileiros com curso superior admitem o uso desse “método” irracional de investigação.

O marquês de Beccaria, há quase 250 anos, num livrinho que ficou célebre, intitulado Dos delitos e das penas, já condenava veementemente a tortura como meio de descobrir a verdade, sob o argumento de que ela é simplesmente ineficaz, porque tanto pode obter a confissão verdadeira do culpado como a confissão mentirosa do inocente. Se é assim, trata-se de um método que nunca resolverá a dúvida do investigador, porque ele jamais saberá se aquele que confessou sob tortura o fez porque é realmente culpado ou porque não suportou o tormento. Além do mais, é uma prática que degrada tanto o torturado quanto o torturador, pois o ato de torturar é algo que nega a dignidade de ambos. Imaginava-se, assim, que a partir do protesto de Beccaria, no chamado Século das Luzes, com o triunfo da razão, essas práticas irracionais pudessem ser defintivamente banidas.

E não é que, 250 anos depois, a quase metade dos brasileiros letrados, justamente aqueles que não se cansam de apontar o “analfabetismo”  e a “ignorância” de seu atual Presidente da República, ainda estão a propor essa metodologia típica da Idade das Trevas e dos tempos do absolutismo!

Valha-me Deus! O que é que se está a ensinar na universidade brasileira? Cadê o ensino que se diz “superior”? O que é que fizeram com os nossos bacharéis? Recuso-me a acreditar que tanta estupidez seja pura maldade dos nossos doutores. E se não é maldade, só pode ser mesmo a sua irmã gêmea: a ignorância.

Futebol colonizado

October 14th, 2009 by machado

Houve um tempo em que se dizia existir duas escolas bem distintas no futebol mundial: o futebol sulamericano, certamente liderado pelo Brasil, que se caracterizava pela graça, pela “ginga”, pelo improviso e pela criatividade, em oposição à escola do futebol europeu, que tinha na disciplina tática, no preparo físico e na força as suas maiores virtudes. Não há dúvida de que entre essas duas escolas acabou prevalecendo o padrão europeu, pois o futebol, no mundo todo, hoje é praticado segundo um único modelo tático, com a prevalência da força e do preparo físico, portanto, sem a arte e sem a criatividade de outros tempos. Basta ver, por exemplo, que em qualquer canto do planeta as equipes passaram a praticar um futebol idêntico, padronizado e burocrático; as equipes ficaram previsíveis e os treinadores com as suas táticas ficaram todos iguais; os jogadores e as jogadas agora permanecem durante quase toda a partida concentrados no meio do campo, como se o objetivo não fosse o gol; e a correria dos competidores, mais bem preparados fisicamente, fez desaparecer os espaços do gramado onde eram construídas as jogadas que resultavam em belíssimos gols, e que faziam do futebol uma verdadeira arte. Prova de tudo isso é que os jogos de hoje são “truncados”, ou muito “pegados”, como se costuma dizer na gíria futebolística.

Atribuem ao técnico da seleção holandesa Rinus Michels, o ter revolucionado o futebol na Copa de 1974 com a sua “laranja mecânica”, em que os jogadores holandeses, submetidos a uma rigorosa disciplina tática, deveriam ocupar todos os espaços do campo, correndo pelo campo todo e se revezando nas funções de ataque, defesa, desarme e marcação, como se fossem as peças de um carrossel, em busca daquilo que chamaram de “futebol total”. Pois bem, essa invenção atribuída a Rinus Michels, cuja seleção nunca ganhou uma Copa do Mundo, parece ter ganhado o mundo todo, já que o futebol passou a ser praticado de modo uniforme e mecânico por todo o globo terrestre, com grande eficiência tática e com aquela mesma correria do “carrossel holandes”. E passou a ser paticado assim inclusive no Brasil, onde alguns “estudiosos” resolveram “importar” a fórmula europeia, o que teria levado o país a conquistar pelo menos uma Copa do Mundo, em 1994, com a prática de um futebol rústico, mecânico, mas de resultados, conhecido como o futebol da “era Dunga”.

O resultado, na verdade, é que os jogadores habilidosos deram lugar ou se transformaram em jogadores “raçudos” e os criativos perderam espaço para os taticamente disciplinados. As jogadas elegantes, e de belíssimos efeitos plásticos, deram lugar a trombadas e encontrões. Vieram então os lances bizarrros e esquisitos, uns que até põem em grave risco a integridade física e a vida dos competidores. E os gols? Bem, os gols passaram a ser um “mero detalhe”, como já disse um ex-técnico da seleção brasileira. Os gols são poucos e quase sempre acontecem de forma acidental, muito mais como resultado da insistência, da força e da “raça”, do que das jogadas conscientemente construídas com arte, com elegância e criatividade. Em grande parte das vezes, ele surge como resultado de uma falha. É irônico, mas o gol passou a ser produto do erro. 

Pois é, o futebol ficou mesmo feio e bruto. Deve ser porque a cultura do futebol-arte, que havia florescido naturalmente aqui na América do Sul, acabou como acabaram muitas outras formas de nossa cultura, isto é, colonizada pelos colonizadores de sempre, com seus euros, dólares e a mesma brutalidade.