Indignações perigosas

Naquele pequeno e famoso livrinho que tem inspirado o movimento dos indignados na Europa, mobilizados contra a ditadura do capital financeiro e contra os exageros do neoliberalismo, depois de proclamar Indignez-vous, Stéphane Hessel recomenda que todos devemos procurar algum motivo para nos indignarmos diante do modo como se tem conduzido a economia mundial e mundializada.

A classe média brasileira, estruturalmente conservadora, parece que já escolheu o seu motivo para indignar-se: a corrupção. Claro que qualquer classe ou pessoa bem intencionada tem motivos de sobra para se levantar contra os corruptos, especialmente contra aqueles que enfiam a mão no dinheiro público e decretam a miséria dos serviços básicos de saúde, educação, segurança, transporte, previdência etc.

Mas, o que causa estranheza é que a indignação e o discurso da classe média se erguem apenas e tão somente contra a corrupção, como se no Brasil não houvesse outros motivos para indignar-se, tais como, por exemplo, a fortíssima exclusão social, a brutal concentração da renda, a escandalosa concentração da propriedade econômica da terra, a tributação injusta que poupa as grandes fortunas e penaliza os pobres e a própria classe média, a sonegação fiscal, a degradação do meio ambiente, o monopólio da comunicação, a exploração do trabalho infantil etc.  

E há ainda o fato de que a indignação da classe média contra a corrupção tem como único alvo os representantes, funcionários e agentes do Estado, como se não existissem os corruptores que não têm cargo público, que ficam do outro lado do balcão, mas que corrompem a máquina estatal do mesmo jeito, em prol dos seus interesses privados. A classe média, além de indignar-se apenas contra a corrupção, mira tão somente os detentores de cargos na burocracia administrativa ou política do Estado, poupando os outros corruptos que estão por fora – ou por trás -, dessa burocracia, e que a corrompem criminosamente para satisfazer os seus próprios interesses e negócios.

Essa indignação unifocal da classe média tem pelo menos três problemas: primeiro, não se dirige contra todas as espécies de corruptos e, portanto, não contribui em nada para combater eficazmente a corrupção; segundo, acaba contribuindo para a desmoralização das instituições públicas (políticas e administrativas) que são essenciais a qualquer Estado e a qualquer sociedade democrática; terceiro, essa gritaria moralista ainda acaba é ressuscitando os discursos autoritários que na década de 70 justificaram tantos golpes militares na América Latina, justamente em nome da moralização do poder e da política.

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One Response to Indignações perigosas

  1. Julia says:

    Querido professor,

    Não costumo visitar seu blog com frequência. Por vezes, passo semanas sem ler um único texto seu. Mas quando aqui venho, promovo verdadeiro encontro com nossos sonhos e utopias partilhados, e ganho fôlego novo para seguir acreditando, e ganho força nova para seguir lutando. Em verdade, acho que “economizo” seus textos para os momentos de maior aflição, de angústia desesperada, quando a sombra do desânimo e da desesperança pairam sobre mim. Sendo assim, gostaria apena de agradecê-lo pelos ensinamentos, vivências, sentimentos e conhecimentos compartidos… encontrar-me com o você, ainda que seja por meio das “palavras virtuais”, ajuda-me na reafirmação cotidiana da essência do meu ser… essência essa que tento manter em movimento e sempre inacabada. Um abraço fraternal!

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