“Eu tenho terras no sul da França”! Bradava o advogado, batendo na mesa que ficava bem no centro do bar. Os olhos vermelhos, a pele oleosa, os cabelos desalinhados, a roupa desleixada e a loquacidade conhecida de todos revelavam que ele já havia bebido como de costume.
Todos já conheciam a sua história. Os seus avós maternos vieram da Europa, norte ou nordeste de Portugal, no começo do século XX e lá deixaram uma pequena propriedade, uma quinta não muito longe das margens do Douro. Depois de muitos anos, os bisavós morreram e um parente muito esperto que morava em Lisboa, bem sucedido financeiramente, acabou por comprar a parte que os herdeiros nascidos no Brasil tinham na quinta. Pagou um preço que, aqui de longe, suspeitava-se, teria ficado muito aquém do real valor das terras. Mas, o fato é que o negócio se concretizou definitivamente, com escrituras, procurações e cartórios. Depois disso, o parente de Lisboa, que já andava muito bem de vida, seguiu amealhando fortuna e se mudou para a Côte D’Azur, Nice talvez, onde agora tinha propriedades.
O advogado, descendente e herdeiro, jamais havia se interessado pelas terras de Portugal, pois, afinal, elas eram tão poucas, e na verdade nunca lhe fizeram falta. A sua carreira razoavelmente bem sucedida na advocacia lhe proporcionara até hoje uma vida confortável. No fundo, não tinha a ambição de acumular patrimônio, adquirir bens e propriedades. As suas ambições, se é que as teve, sempre foram de ordem pessoal.
Preocupava-se mais com a sua própria formação, com o conhecimento adquirido nos livros, tinha uma certa cultura humanística, e até da aparência pessoal ele gostava de cuidar. Mas as ambições materiais eram poucas, somente as necessárias, talvez. Se bem que às vezes imaginava que poderia ter sido um homem de negócios, dono de algum patrimônio, envolvido com as questões materiais da vida e com as urgências mais práticas dela. Isto, pensava ele, daria um sentido mais prático à sua vida e ao menos teria ocupado o lugar dos seus conflitos, dos seus dilemas morais, das questões desesperadamente humanas, livrando-o, quem sabe, das inúmeras angústias existenciais que o atormentavam. Por vezes, achava que o envolvimento com as coisas materiais, a vida atribulada dos negócios, e até uma certa dose de ambição, poderiam ter o efeito benéfico de afastá-lo das questões excessivamente humanas, fazendo com que se esquecesse um pouco de si mesmo e dos mistérios da existência.
Somente agora, cinquenta anos depois da morte dos bisavós, e sobretudo depois que se entregou com mais frequência à bebida, é que ele deu para reivindicar a sua “parte na herança”, isto é, o pagamento justo pelas terras dos seus antepassados. Era uma reivindicação moral, apenas. O seu tribunal era o bar, onde os amigos, em meio a risos e galhofas, lhe davam sempre razão, estimulando aquela retórica inflamada, o tom indignado, as bravatas e as ameaças que terminavam sempre com a frase triunfal: “eu tenho terras no sul da França”. Por essa razão, ele era ali conhecido como Proprietário. Do ponto de vista estritamente pessoal, ele não via tanta diferença entre a causa que defendia no bar e aquelas que sustentava nos tribunais. A diferença entre elas era apenas um detalhe institucional, por isso deveriam ser defendidas com a mesma intensidade.
A oratória do advogado, apesar de exagerada e muitas vezes extravagante, tinha também os seus admiradores no bar. Um deles era o Franco, que costumava sentar-se numa mesa pequena bem ao fundo, num lugar discreto. Depois de muitos goles, com o seu jeito humilde e gestos que já denunciavam algum descontrole motor, ele olhava disfarçadamente para o advogado, pelo canto do olho, dissimulando a admiração sincera, quase devota. Empolgava-se com uma ou outra palavra desconhecida. Excitava-se quando o orador deixava escapar algum latim, como o indefectível “data venia” e aquela expressão que ele mesmo, com a sua pronúncia, tentava repetir toda vez que pedia mais uma dose ao dono do bar: “me dá um fumus bonuris“. Não raro, aplaudia o discurso, sinceramente convencido das razões e dos argumentos sustentados pelo causídico. Porém, o que mais lhe impressionava eram as palavras bonitas, as expressões novas e a cultura imensa que ele atribuía ao advogado. No final, muito tímido, quase sempre chegava às lágrimas. Visivelmente arrebatado, ficava longo tempo olhando para o orador, fixamente, como quem olha para um ídolo, com uma espécie de devoção.
Os que conheciam o advogado há mais tempo, e que lhe tinham uma amizade mais antiga - para além dos limites do bar -, presenciavam a sua peroração com certa reserva e um mal disfarçado constrangimento. Constrangia-lhes a lembrança do causídico de outrora, contido, culto e combativo, em contraste com a figura do advogado atual, verborrágico, alterado pelo álcool, defendendo de maneira ridícula uma causa igualmente ridícula, apenas para o deleite da turba que o cercava e que se comprazia no riso, atiçando o discurso inflamado, às vezes desconexo e pândego, fora de lugar.
Os amigos de antigamente, que vez ou outra também frequentavam o bar, consideravam que aquela sustentação oral verborrágica, aquela eloquência espetacular e desmedida, nada mais era do que um sinal inequívoco da decadência. Tanto a do homem quanto a do advogado. Ambos, o homem e a carreira, já haviam perdido o brilho e o entusiasmo de outras épocas. Era a ação artesanal e silenciosa do tempo tecendo minuciosamente um declínio natural, quase necessário, inelutável.
Grande apreensão houve no dia em que, no auge da eloquência ciceroniana, entrou no bar o juiz da comarca. Circunspecto, sisudo, cuidando para que não fosse abordado pelos circunstantes de forma pouco condizente com a sua autoridade, pediu logo um maço de cigarros e saiu apressado, fingindo não ver nem ouvir o discurso burlesco do advogado que ele conhecia sóbrio, que demandava cotidianamente no foro.
Quando já estava na rua, alguém sugeriu que o Proprietário falasse diretamante ao juiz, que lhe apresentasse as suas reivindicações. Então o juiz apertou o passo, atravessou a rua, mas ainda deu para ouvir a frase indefectível, proclamada agora num tom mais elevado, com mais ênfase, certamente para que o magistrado pudesse ouvi-la: “Eu tenho terras no sul da França”. O homem do foro fez que não ouviu nada e continuou andando apressado, evitando qualquer tipo de contato com as circunstâncias e com os circunstantes, qualquer inconveniência que pudesse arranhar ou diminuir a sua autoridade.
No dia seguinte, apregoadas as partes, o advogado entrou na sala de audiências e cumprimentou respeitosamente o juiz. Este, cumprimentou-o também de maneira afável, com um ligeiro sorriso passeando no rosto, sorriso meio cúmplice de quem realmente havia presenciado aquela inusitada sustentação jurídica no bar. Nenhum dos dois tocou no assunto. O advogado fez as suas reivindicações processuais de forma competente. Argumentava com ponderação, uma certa elegância até, sustentando oralmente a superioridade dos princípios jurídicos sobre as normas legais. Fundamentou os seus pedidos, como sempre, de maneira objetiva, pragmática, com rigor de lógica jurídica, como se costuma dizer. O juiz não teve por que recusar-lhe as teses. Encerrada a audiência, despediram-se e o advogado saiu conversando com o cliente, aconselhando-o em voz baixa, num tom quase paternal.
Ao fim do dia lá estava ele de novo, em meio aos amigos, animado, os olhos vermelhos, a voz meio pastosa, bradando ruidosamente: “eu tenho terras no sul da França”. Alguém lembrou que era melhor esperar pelo juiz da comarca, pois o magistrado poderia decidir essa causa de uma vez por todas e conceder-lhe a posse definitiva das terras. Então, o Proprietário retrucou dizendo que o juiz não tinha competência territorial para tanto. Além do mais, tratava-se de uma causa ganha, indiscutível, daquelas que não precisam de juiz nenhum.
Quando todos já estavam desinteressados do discurso, o advogado levantou, bateu na mesa e saiu balançando negativamente a cabeça. Alguém interpelou-o provocativamente, perguntando-lhe pelo nome do verdadeiro proprietário das terras, do senhorio legítimo, aquele parente nababo que agora morava na Côte D’Azur, desfrutando da herança deixada pelos seus bisavós. E ele respondeu sem se voltar, dando de ombros: “eu não sei, não me interessa, acho que é Luís”. E completou, já do outro lado da rua: “ele é o proprietário, mas eu tenho terras no sul da França”.
Já disse, certa vez, o Min. Marco Aurélio “Leiam obras do Direito, utilizadas no dia-a-dia da profissão, mas tenham também sempre à mão um romance. Por que o Direito rege a vida em sociedade e, no romance, você tem um conflito, assim você aguça sua sensibilidade e a formação humanistica necessária aos operadores do Direito”. Sábias palavras, do Ministro e do Proprietário.