O advogado abriu a porta do armário, passou as mãos e os olhos pelos ternos dependurados um ao lado do outro, escolheu o “terno azul-claro”, vestiu-o com uma camisa branca e a velha gravata azul de listras cor de vinho, calçou meias azuis e sapatos pretos, mirou-se no espelho e foi embora.
Na penumbra do armário, os outros ternos se perguntavam aonde é que iria hoje o “terno azul-claro”, com tanta pressa e tanto mau-humor, naquela manhã ensolarada de segunda-feira. À noite, quando retornou ao armário, disse aos demais: “estive outra vez no tribunal”, desabafando, “encontrei de novo aquele juiz enfatuado, que se dá tanta importância”. Os outros ternos permaneceram calados, todos eles conheciam o juiz e a rotina do tribunal, não havia nenhuma novidade e nenhum interesse naquele dia exaustivo do “terno azul-claro”. Azar dele!
Com ar pensativo e uma certa nostalgia, o “terno preto” recordava aos demais a noite glamourosa do casamento. No começo da festa sentia-se um pouco tenso, apreensivo, pois sabia que estava no centro das atenções. Todos vinham cumprimentá-lo e apesar da emoção distribuía abraços protocolares, mantendo sempre um sorriso comedido no rosto. Depois, foi se soltando aos poucos por entre as luzes, a música e o burburinho dos convidados. Andava de um lado para o outro bem mais a vontade, sentindo, porém, a multidão de olhares, uns atentos outros interrogativos, que os convidados lhe dirigiam discretamente. Confiava no seu corte e no linho 120. “Saí-me bem”, disse com ares narcisistas, olhando para o “terno marron” que estava ao seu lado.
Todos ouviam com atenção e sem nenhuma ponta de inveja nem de ressentimento. Sabiam que os compromissos de gala, cumpridos geralmente à noite, estavam sempre reservados ao “terno preto”. Foi assim também na formatura e em tantas outras ocasiões importantes. Tratava-se de uma questão de etiqueta e não de privilégio. Era uma espécie de missão que o “terno preto” deveria cumprir, e cumpria-a sem nenhuma esnobação, às vezes apenas com um certo prazer.
O “terno bege” lembrou que também já havia comparecido a algumas solenidades importantes, mas concordou que o seu destino era mesmo os compromissos do dia-a-dia, cumpridos numa rotina igual e burocrática, sem nenhum sabor especial, porém, absolutamente necessária. É certo que em alguns eventos havia recebido até alguns aplausos, como naquela palestra em que os participantes, e ele próprio, discutiram física quântica e direitos humanos. Não reclamava do seu destino burocrático, pois apesar de tudo andava sempre muito garboso, com todos os seus vincos destacados, por vezes até recebia algum elogio, e era alvo, como todos os ternos, de um certo reconhecimento social.
Uma luz fina penetrava pela fresta da porta e deixava o armário iluminado. Os ternos se agitavam num burburinho incomum, todos tentando advinhar qual seria o compromisso daquele domingo de manhã, já que não era usual sair aos domingos, muito menos num mês de férias. Interpelavam-se uns aos outros, arriscavam palpites quando a porta abriu de repente e tiveram de se recolher ao silêncio de sempre. Apesar da intensidade com que participavam da vida aqui fora, frequentando com destaque os eventos mais importantes, compreendiam a necessidade de manter o mundo da penumbra separado do mundo dos humanos. Apenas a manga do “terno cinza”, que estava encostada na porta, moveu-se bruscamente, disfarçando a ansiedade.
Quem saiu naquele domingo foi o “terno verde-água”. Saiu sem pressa, descontraído, como quem sai bem cedo para ir a uma festa. O tecido leve e o corte bem feito acentuavam-lhe uma “caída” natural, espontânea. Sentia-se à vontade. Ficou deslumbrado quando entrou no teatro e viu que os membros da orquestra já se preparavam, com modos mecânicos e gestos calculados, para aquele concerto de verão. A plateia também se ajeitava de maneira sincronizada, produzindo um rumor abafado, como se fizesse parte do espetáculo. Logo após o adagio maestoso da sinfonia nº 3 de Franz Schubert, ele já estava convencido de que a música era muito mais do que simples ondas sonoras que os ouvidos captavam. Foi a partir desse dia que se tornaram frequentes no armário as conversas sobre a música erudita e suas etapas. Com ares de “conhecimento de causa”, falavam do cantochão, da música sacra de Palestrina e Haydin, do barroco de Vivaldi e Bach, da forma clássica de Mozart, do romantismo de Beethoven, Schubert, Chopin e Richard Wagner, e até sobre a música contemporânea arriscavam algum prognóstico.
Numa quarta-feira chuvosa, o “terno marrom” saiu contrariado para um compromisso na universidade. Estava entediado, havia perdido a hora e tinha pouca afinidade com o assunto de que iria tratar. Era mais para cumprir a burocracia acadêmica. Voltou à noite, cansado e sem entusiasmo, queixando-se do eruditismo e da cultura ilustrada. Havia uma certa amargura na sua expressão quando pousou os braços nos ombros do “terno azul-marinho” e disse, “não aguento mais todo aquele pedantismo”. Continuou reclamando: “a universidade, que deveria ser o espaço do saber e da invenção, está afundando melancolicamente de tanto se repetir”. Preferia não ter presenciado aquela encenação acadêmica. Sentiu a inutilidade de tudo.
Os dias seguiam iguais na penumbra monótona do armário. Agitação mesmo, só quando ficavam tentando advinhar quem seria o escolhido para o próximo compromisso. Nessas ocasiões havia uma certa excitação, às vezes até um rumor exagerado e perigoso. Então a porta se abria, eles se recolhiam ao mutismo necessário, o escolhido partia para o compromisso e as conversas voltavam ao seu curso normal, sobre as banalidades do cotidiano. Nessas ocasiões, eles mergulhavam no tédio e num certo cansaço metafísico, como se não houvesse nada lá fora, nada além do armário imerso na penumbra.
Havia, no entando, um assunto que nunca fora objeto de especulação entre eles. Na verdade, era um tabu que todos temiam. Uma espécie de assunto proibido. De fato, nenhum deles ousava arriscar qualquer palpite sobre quem seria o escolhido para o último compromisso. Evitavam especular também acerca de quando esse compromisso se daria. Tinham apenas a certeza de que, quando chegasse o dia fatal, a porta se abriria e o eleito seria escolhido por um estranho, por alguém que nada tinha a ver com eles. Que não lhes conhecia as características, as preferências e as inclinações. Seria escolhido a esmo, de maneira aleatória, por um funcionário qualquer de uma empresa mortuária, numa escolha implacável, indiferente.
Excelente prosa! A personificação de coisas fez-me lembrar da crônica “Impostos Inconstitucionais” de outro Machado, o de Assis.
16 de maio de 1885, Balas de Estalo
Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostos inconstitucionais de Pernambuco1. Conheceram-me logo; eu é que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, vox clamantis in deserto2. Disseram-me que tinham chegado no último paquete. O mais velho acrescentou até que, já agora, hão de repetir com regularidade estas viagens à Corte.
— A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiu ele, não há de morrer de aborrecimento na cela das probabilidades. Uma chegadinha à Corte, de quando em quando, não faz mal a ninguém, exceto…
— Exceto…?
— Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentos íntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não há coisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for. Falei de um modo geral e abstrato. Você costuma dizer tudo o que pensa?
— Tudo, tudo, não; nem eu, nem o meu vizinho boticário, e mais é um falador das dúzias.
— Pois então!
— Em todo caso, demoram-se?
— Temos essa intenção. O pior é o calor, mas felizmente começa a chover, e se a chuva pega, junho aí vem com o inverno, e ficamos perfeitamente. Está admirado? É para ver que já conhecemos o Rio de Janeiro. Contamos estar aqui uns três meses, não pode ser que vamos a quatro ou cinco. Já fomos à Câmara dos Deputados.
— Assistiram à recepção do Saraiva, naturalmente?
— Não, fomos depois, no dia 13, uma sessão dos diabos. Ainda assim, o pior para nós não foi propriamente a sessão, mas o demônio do José Mariano4, que, apenas nos viu na tribuna dos diplomatas, logo nos denunciou à Câmara e ao Governo. Não pode calcular o medo com que ficamos. Eu, felizmente, estava ao pé de duas senhoras que falavam de chapéus, voltei-me para elas, como quem dizia alguma coisa, e dissimulei sem afetação; mas os meus pobres irmãos é que não sabiam onde pôr a cara. Hoje de manhã, queriam voltar para Pernambuco; mas eu disse-lhes que era tolice.
— São todos inconstitucionais?
— Todos.
— Vamos aqui para a calçada. E agora, que tencionam fazer?
— Agora temos de ir ao imperador, mas confesso-lhe, meu amigo receamos perder o tempo. Você conhece a velha máxima que diz que a história não se repete?
— Creio que sim.
— Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o imperador, não dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras, e, por outro lado, como a história não se repete… Você, se fosse imperador, o que é que faria?
— Eu, se fosse imperador? Isso agora é mais complicado. Eu, se fosse imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata, faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos.
— Os adjetivos?
— Vocês não calculam como os adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e quando não corrompem, aborrecem a gente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria. Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo.
— Mas que temos nós outros com isso?
— Tudo. Vocês como simples impostos são excelentes, gorduchos e corados, cheios de vida e futuro. O que os corrompe e faz definhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por um decreto todos os adjetivos do Estado, resolvia de golpe essa velha questão, e cumpria esta máxima, que é tudo o que tenho colhido da história e da política, e que aí dou por dois vinténs a todos os que governam este mundo: Os adjetivos passam, e os substantivos ficam.
Machado,
por esses dias, ao atuar em uma audiência, lembrei de sua crônica e fiquei pensando sobre o que meu terno estaria pensando sobre os seguintes fatos: num final de semana, a alegria da participação na comemoração da formatura dos amigos no curso de direito; no meio da semana, as agruras da participação no exercício de uma profissão cuja conquista do grau deu tanta alegria no final de semana.