A fé é uma espécie de dom. Isto é, o dom de ter esperança. Esperança que sempre ajuda a enfrentar a angústia, o absurdo e o desespero que tanto atormentam a existência do homem. Dessa forma, a capacidade de ter fé, de seguir acreditando, de não desanimar nunca, mesmo diante do silêncio, da dor e dos absurdos que a vida nos vai colocando, é algo realmente muito importante e até desejável.
Mas, como tudo no mundo, a fé tem também os seus problemas. Veja que às vezes ela fica muito vulnerável, suscetível até, às inúmeras investidas do fanatismo. Sempre foram muito comuns os casos de sacrifícios físicos, de auto-flagelos, de renúncia de si mesmo, e até de muitas guerras deflagradas em nome da fé religiosa, ou de algum Deus, sendo Este qual for.
Um outro problema reside no fato de que a fé não pode e não sabe entender-se a si mesma. Isto é um sinal de que ela não deseja, ou não consegue utilizar o raciocínio humano para explicar-se. Deve ser por isso que dizem que a fé é cega. Embora não seja caso de voltar à antiga querela entre fé e razão, o fato é que o bloqueio do raciocínio sempre leva a alguma forma de cegueira ou de dogma, e isto, como já ficou claro desde o triunfo das ideias iluministas no século XVIII, pode ser muito perigoso.
Certa ocasião, a propósito da mística do dia de “Corpus Christi”, perguntei a um casal muito amigo e muito religioso por que é que a hóstia sagrada representava o “corpo de Cristo”. E eles disseram, quase que em uníssono, que a hóstia não representa o corpo de Cristo, ela não é um símbolo, ela é o próprio corpo de Jesus, ou um pedaço dele. Para deixar as coisas bem claras, tornei a perguntar se a hóstia era um símbolo ou o corpo mesmo de Cristo. E eles, sem pestanejar, reafirmaram, com a maior convicção do mundo, que ela era de fato uma parte do próprio corpo do filho de Deus, não apenas uma representação simbólica, ou mística, desse corpo. Nem é preciso dizer que a conversa não prosseguiu, pois a questão estava definitivamente respondida, definitivamente resolvida.