Tudo flui

Desde a Antiguidade, o filósofo pré-socrático, Heráclito de Éfeso, já dizia: tudo flui, ou, na fórmula grega, “panta rhei”. Com isto, ele queria dizer que a realidade está em permanente mudança. Assim, segundo Heráclito, um homem não conseguiria entrar duas vezes no mesmo rio, porque, ao entrar e sair, na segunda vez o homem já não seria exatamente o mesmo nem o rio teria as mesmas águas. O filósofo concluia, então, que “a única constante é a mudança”, afirmando que essa mudança se dá dialeticamente, ou seja, pela ação de forças contrárias entre o real e o não-real.

Pois bem, apesar dessa constatação acerca da realidade, e que até hoje não desmentiu-se, o fato é que o homem (também ele uma parte integrante da realidade), segue com os seus anseios de establilidade, de certeza, de previsibilidade, de permanência, e até mesmo de eternidade, em completo desacordo com a constante mudança do mundo.

Deve estar aí a origem das várias angústias e até do desespero com que muitas vezes lidamos com a realidade. O filósofo Albert Camus, agora no século XX, diria que está exatamente nisso o absurdo da condição humana: nos anseios de permanência e eternidade do homem em face do “silêncio despropositado” do mundo, que segue mudando, indiferente a esses anseios humanos. E parece que não há mesmo nenhuma saída para esse absurdo camusiano, pois o mundo só pode continuar existindo por força da mudança, justamente a mudança que implica a efemeridade e a finititude de tudo, inclusive a do homem.

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