O velho da praça

Num fevereiro distante, o moço observava o olhar meio perdido do velho que estava sentado num banco de praça. Era um olhar sem expressão nenhuma, de quem fixa o nada sem qualquer interesse, alheio a tudo. O semblante do velho parecia cansado, havia nele alguma coisa de desiludido. O seu rosto, vincado pelo tempo, exprimia uma espécie de resignação, como se estivesse apenas cumprindo, resignadamente, o inelutável destino de ver o tempo passar. Estava ali, como disse Rubem Alves certa vez, “numa presença de quem já está se despedindo”. O velho parecia triste.             

De fato, a sua expressão revelava um certo desencanto, talvez aquele desencanto dos que já olharam tantas vezes para o mesmo lugar sabendo que não veriam nada de novo. O rapaz ficou impressionado com aquele ar de indiferença e lembrou do personagem de Aluísio de Azevedo, em O cortiço, que no final da vida “olhava ao seu redor com a indiferença dos que já não esperam nada dos outros nem de si mesmo”. A expressão do velho era a de quem já podia antever o final do caminho, e talvez não visse muito sentido nem no caminho que havia percorrido até ali nem no que ainda estava por percorrer.

Tantos fevereiros depois, às vezes o moço ainda se lembra do velho da praça, mas lembra-se agora com semelhante cansaço no olhar, um vago desencanto, e a certeza da inutilidade de tudo.

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