Futebol colonizado

Houve um tempo em que se dizia existir duas escolas bem distintas no futebol mundial: o futebol sulamericano, certamente liderado pelo Brasil, que se caracterizava pela graça, pela “ginga”, pelo improviso e pela criatividade, em oposição à escola do futebol europeu, que tinha na disciplina tática, no preparo físico e na força as suas maiores virtudes. Não há dúvida de que entre essas duas escolas acabou prevalecendo o padrão europeu, pois o futebol, no mundo todo, hoje é praticado segundo um único modelo tático, com a prevalência da força e do preparo físico, portanto, sem a arte e sem a criatividade de outros tempos. Basta ver, por exemplo, que em qualquer canto do planeta as equipes passaram a praticar um futebol idêntico, padronizado e burocrático; as equipes ficaram previsíveis e os treinadores com as suas táticas ficaram todos iguais; os jogadores e as jogadas agora permanecem durante quase toda a partida concentrados no meio do campo, como se o objetivo não fosse o gol; e a correria dos competidores, mais bem preparados fisicamente, fez desaparecer os espaços do gramado onde eram construídas as jogadas que resultavam em belíssimos gols, e que faziam do futebol uma verdadeira arte. Prova de tudo isso é que os jogos de hoje são “truncados”, ou muito “pegados”, como se costuma dizer na gíria futebolística.

Atribuem ao técnico da seleção holandesa Rinus Michels, o ter revolucionado o futebol na Copa de 1974 com a sua “laranja mecânica”, em que os jogadores holandeses, submetidos a uma rigorosa disciplina tática, deveriam ocupar todos os espaços do campo, correndo pelo campo todo e se revezando nas funções de ataque, defesa, desarme e marcação, como se fossem as peças de um carrossel, em busca daquilo que chamaram de “futebol total”. Pois bem, essa invenção atribuída a Rinus Michels, cuja seleção nunca ganhou uma Copa do Mundo, parece ter ganhado o mundo todo, já que o futebol passou a ser praticado de modo uniforme e mecânico por todo o globo terrestre, com grande eficiência tática e com aquela mesma correria do “carrossel holandes”. E passou a ser paticado assim inclusive no Brasil, onde alguns “estudiosos” resolveram “importar” a fórmula europeia, o que teria levado o país a conquistar pelo menos uma Copa do Mundo, em 1994, com a prática de um futebol rústico, mecânico, mas de resultados, conhecido como o futebol da “era Dunga”.

O resultado, na verdade, é que os jogadores habilidosos deram lugar ou se transformaram em jogadores “raçudos” e os criativos perderam espaço para os taticamente disciplinados. As jogadas elegantes, e de belíssimos efeitos plásticos, deram lugar a trombadas e encontrões. Vieram então os lances bizarrros e esquisitos, uns que até põem em grave risco a integridade física e a vida dos competidores. E os gols? Bem, os gols passaram a ser um “mero detalhe”, como já disse um ex-técnico da seleção brasileira. Os gols são poucos e quase sempre acontecem de forma acidental, muito mais como resultado da insistência, da força e da “raça”, do que das jogadas conscientemente construídas com arte, com elegância e criatividade. Em grande parte das vezes, ele surge como resultado de uma falha. É irônico, mas o gol passou a ser produto do erro. 

Pois é, o futebol ficou mesmo feio e bruto. Deve ser porque a cultura do futebol-arte, que havia florescido naturalmente aqui na América do Sul, acabou como acabaram muitas outras formas de nossa cultura, isto é, colonizada pelos colonizadores de sempre, com seus euros, dólares e a mesma brutalidade.

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