O acaso

Um famoso pensador da Antiguidade, não lembro qual, já dizia: “o acaso é rei”. E é curioso notar como o acaso, realmente, parece brincar com a realidade, fazendo e desfazendo, unindo e separando, provocando o certo e o errado, como se reinasse absoluto entre nós. Observe-se como ele junta e separa fatos, une e afasta situações, provoca o encontro e o desencontro das pessoas e, com isso, vai tecendo as mais incríveis coincidências e os mais improváveis acontecimentos. E o faz tanto para o bem quanto para o mal. Quando o acaso age de forma benfazeja, produzindo a alegria, a felicidade, ou às vezes até mesmo salvando vidas, alguém sempre dirá que foi um verdadeiro milagre, operado pelas “mãos de Deus”. Porém, quando a obra do acaso dá para trás e resulta no mal, na tragédia, na desgraça e na dor, costuma-se afirmar: “é coisa do diabo”.

Afinal, o acaso é rei, é Deus ou seria o diabo? Seja lá o que for, o fato é que ele parece ser coisa poderosa, pois as suas artimanhas andam aí a operar tantas e tantas surpresas que chegam a desafiar não só a razão humana, como também as crenças e as verdades científicas, e isto até mesmo no campo das chamadas ciências exatas como a lógica, a física e a matemática.

Na física, por exemplo, já se instalou o chamado Princípio da Incerteza, formulado pelo alemão Werner Heisenberg na década de 30, segundo o qual é impossível determinar exatamente a posição de um elétron no interior do átomo, pois esse elétron se movimenta aleatoriamente, sem uma causa aparente que o fizesse andar por aqui ou por ali. A partir disso, a Mecânica Quântica foi obrigada a admitir que a realidade, pelo menos a microscópica, opera por saltos e é aleatória, devendo conviver, portanto, com o acaso das probabilidades, e não apenas com as leis determinísticas regidas, rigorosamente, por forças previsíveis de causa e efeito.

Foi exatamente essa incerteza da física quântica, e que até hoje ainda não explicou-se, o que deixou Alberto Einstein perplexo, ao ponto de duvidar das suas próprias descobertas sobre a Teoria da Relatividade, proclamando que não era possível que a álea comandasse a realidade, de maneira incerta e imprevisível, pela simples e boa razão de que “Deus não joga dados”.

Veja como o acaso faz das suas peripécias também nos domínios das leis científicas, desafiando e confundindo até os cérebros mais geniais como é o caso de Einstein. Pelo jeito, as ciências ainda terão muito trabalho pela frente nessa áspera tarefa de querer explicar a realidade. E bem que elas poderiam começar por incluir uma hipótese que talvez já não fosse assim tão absurda, qual seja, “ou o acaso é Deus, ou Deus, de fato, anda a jogar dados”. Mas, o problema é que isto seria um prato-cheio para o diabo.

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