Nunca imaginou que o seu jeito tímido, o gênio pacato, o temperamento assustadiço, a alma tantas vezes capaz de alguma generosidade, pudessem abandoná-lo algum dia, permitindo que explodisse num acesso de violência, muito menos uma violência que o trouxesse ao banco dos réus. Considerava que tudo tinha sido nada mais nada menos do que o resultado de uma impaciência momentânea, irrefreável, trazida pelos anos e pelo cansaço de uma vida banal, de frustrações e de tédio. Não era possível que fosse um criminoso, logo ele! Espantado, sentiu uma espécie de vertigem, como se fosse um calafrio que lhe entrava pelos ossos, pois jamais havia pensado que fosse tão pequena, talvez até imperceptível, a distância que separa um homem comum de um homem criminoso.
O fato é que há algum tempo já vinha sentindo que não era mais o mesmo, alguma coisa havia mudado. Não sabia bem o quê nem o porquê. Às vezes tinha a sensação de que havia saído para muito longe de si próprio, sem conseguir regressar completamente. Mas nunca pensou que pudesse chegar ao ponto de ter atitudes que a lei consideraria um crime.
Agora, teria de reviver aquele fato lamentável diante de um tribunal. Teria de expor os motivos íntimos que o levaram àquela explosão de cólera, expor os seus ódios, as suas frustrações, os medos e as fraquezas que, juntos, poderiam explicar a aparente irracionalidade daquele ato criminoso. E expor tudo isso nos mínimos detalhes, como se tivesse de despir-se diante da gente do tribunal, escancarando para todo o mundo a sua alma atormentada e a intimidade do seu mundo interior. Tudo o que não desejava era voltar a viver aquele dia fatídico em que havia perdido o controle de si mesmo, e menos ainda fazê-lo diante dos olhos acostumados e ao mesmo tempo sequiosos da gente do tribunal.
Na verdade, só de pensar que precisaria reviver aquele fato, narrá-lo diante do juiz, reproduzi-lo em todos os seus aspectos, já sentia um enorme mal estar na alma, uma espécie de náusea metafísica. Em seguida, quando lembrava que para ser absolvido precisava convencer os juízes e toda a gente, era tomado por um desânimo profundo. Mas, esse desânimo, ao menos, era mais compreensível do que a “náusea”.
Não tinha nenhuma disposição para assumir o papel do acusado. Estava psicologicamente esgotado, sem reação e sem energia para se defender perante a lei. O seu crime era um assunto particular, uma questão absolutamente pessoal, íntima, e nada tinha a ver com acusadores, juízes, escrivães ou advogados. Ele próprio, na medida do possível, trataria de reparar o seu erro e de punir-se interiormente, com as suas próprias leis – que eram rígidas o bastante -, no rigoroso tribunal da sua consciência. De mais a mais, sentia que não seria possível levar ao tribunal toda a realidade dos fatos, toda a cadeia dos elementos que haviam antecedido e desencadeado a sua ação brutal. Ninguém conseguiria estabelecer qualquer nexo entre aquele ato incompreensível e as suas frustrações anteriores, as pequenas impaciências, o ódio difuso, o tédio e a insegurança de sempre. Seria impossível restabalecer uma verdade completa sobre todos os aspectos do fato, alguma coisa sempre escaparia ao julgamento.
Todo crime, e especialmente aquele seu, é sempre algo constituído de muitas matérias, não se resume apenas a um ato final. E o seu desânimo decorria exatamente da desconfortável certeza de que só o ato final seria levado em conta pelos seus julgadores. Sentia que ele próprio e a força irresistível dos seus motivos permaneceriam à margem do crime, como se pouco ou nada tivessem a ver com ele.
No dia do interrogatório, o juiz perguntou se o réu acreditava em Deus e ele respondeu secamente que não. O magistrado pareceu satisfeito com o estilo sincero, objetivo e incondicional da resposta. Até elogiou o jeito decidido do interrogado. Afinal, com um peremptório “não”, de modo resoluto, sem margem para dúvidas, ele havia resolvido um problema tão antigo quanto complicado da teologia, da metafísica e da filosofia.
Porém, o juiz, embora aprovando o estilo direto da resposta do acusado, mostrou-se surpreso pela rapidez com que o ele respondeu à sua inusitada pergunta, e ficou esperando, certamente, alguma fundamentação racional para aquela convicção aparentemente inabalável, chocante.
O fato é que, depois da resposta seca, o réu permaneceu calado, não se dispôs a fundamentar sua opinião. Na verdade, ele não gostava dessa questão acerca da existência ou não de Deus. Evitava-a o quanto podia. Era uma discussão que estava fora do seu alcance. E aquela resposta peremptória que deu ao juiz, sobre ser uma afirmação sem importância nenhuma, talvez fosse a resposta de quem queria apenas livrar-se da pergunta. Era tão somente uma simples opinião negativa de quem jamais se ocupou do assunto. E ainda que se ocupasse, com a medíocre capacidade de compreensão que tinha – nesse e noutros assuntos –, decerto que não produziria nenhuma resposta interessante.
É claro que o fato de não acreditar em Deus era algo que poderia prejudicar a defesa do réu, podendo até mesmo reforçar a presunção de culpa que sempre resulta dos processos criminais, tal como ocorre naquela novela de Albert Camus, O estrangeiro, em que o réu é condenado por um homicídio, mas também porque não chorou no velório da mãe. E o prejuízo seria tanto maior quanto maior fosse a crença do juiz, para quem a existência de Deus deveria ser algo importante, importante ao ponto de levá-lo a inquirir o réu sobre essa questão inteiramente estranha aos autos, pois, afinal, não se tratavam ali de autos-de-fé.
O acusado percebeu então que a sua resposta poderia desagradar o juiz. Pressentiu que o melhor seria mostrar-se um homem temente a Deus, pois a condição de ateu sempre pode trazer algum prejuízo, alguma resistência. Estava nervoso, mas, apesar disso, uma ideia fugaz, tão repentina quanto inoportuna, passou-lhe pela cabeça. Pensou que pior do que a incapacidade para explicar ou para compreender a existência ou inexistência de Deus era a sua falta de crença, falta que sempre poderá fazer minguar a esperança, sobretudo a esperança dos condenados. Estranhou que, mesmo naquele momento cruciante do seu interrogatório a sua cabeça pudesse se ocupar de um problema tão metafísico, tão abstrato, e tão inteiramente inútil em face das soluções práticas e imediatas que a ocasião exigia.
Nesse momento, teve a certeza de que alguma força estranha poderia influenciar a decisão do juiz, talvez até selar o seu destino. Dessas forças inconscientes que são capazes de desencadear predisposições e preconceitos. Pressentiu que aquela força oculta, que poderia realmente definir a sua causa, jamais viria a ser objeto do processo. Exaurido, olhava as paredes frias do tribunal enquanto uma ligeira fraqueza lhe atravessava o corpo de alto a baixo, instalando-se vagamente nas pernas e nos braços.
A incerteza havia entrado pelos escaninhos do foro e instalou-se definitivamente nas páginas misteriosas do seu processo. Lembrou-se então do estilo realista e debochado de um tio meio distante que estava sempre a dizer: “a vida é um jogo”.
Mais tarde, o advogado lhe explicaria que não era o caso de se ocupar com “forças estranhas”, com coisas metafísicas, pois elas não constam dos autos, são simples delírios, miragens que afetam os réus em geral. Na verdade, acrescentou o advogado, o mais razoável era confiar no processo e fazer uma defesa competente, no rigor da técnica jurídica, “dentro” dos autos, sem se perder com o imponderável.
Antes de prosseguir respondendo às demais perguntas do juiz, sem saber por que, pensou de relance na morte. Considerou que uma eventual condenação, fosse ela qual fosse, não poderia ser pior do que a morte, a morte que nos faz um “rebanho” de condenados à pena capital, independentemente do crime. De fato, com crime ou sem crime, com culpa ou sem culpa, em meio a tantos sofrimentos inúteis, ele pensou no absurdo que é caminhar sempre na direção de um final inevitável e sem glória.
O réu não entendia como o seu cérebro, que precisava concentrar-se nas respostas e na versão que deveria dar ao juiz, pudesse se ocupar de questões absolutamente alheias à gravidade do momento. O momento não estava para tais divagações, pois era preciso continuar respondendo ao juiz. O interrogatório prosseguia. Deus e a morte não eram importantes naquele instante. Não tinham função nenhuma. Com ou sem eles, o interrogatório continuaria se desenrolando e a sua condição de réu, bem como a possibilidade de uma condenação, seriam as mesmas. O juiz perguntou se ele desejava declarar mais alguma coisa. Desesperou-se. Sentiu-se desamparado. Teria muita coisa a declarar.
O advogado estava ali, ao seu lado, poderia defendê-lo, intervir de qualquer modo, falar em seu nome, mas não poderia ajudá-lo a suportar a incerteza e o medo daquele momento, pois não era o réu, não tinha sobre ele o espectro sinistro, concreto e real, da condenação. Estava sozinho como no dia do crime. Não conseguiria traduzir nem os motivos nem a força dos motivos que o haviam impelido para aquele ato brutal.
Percebeu que uma impotência lhe congelava a alma, pois somente ele, que havia vivido a circunstância absurda de um ato impensado e irresistível é que poderia entender o seu próprio crime, em todas as suas nuances. Somente ele teria acesso aos elementos que o poderiam eventualmente absolver. Mas não havia como ser o juiz de si mesmo. Era indispensável que fosse julgado por outro, por um estranho, por quem não conseguiria juntar jamais todos os elementos que o acaso ou o maligno haviam juntado nas regiões mais recônditas, mais incompreensíveis, da sua alma desolada, perdida. Seria julgado por alguém que, quando muito, só conseguiria ser imparcial, nada mais. Como seria a estrutura psicológica e o lado emocional de um homem acostumado a procurar a culpa? Na verdade, a ideia de ser julgado por alguém que tinha o hábito de procurar a culpa causava-lhe um certo pavor acompanhado de desânimo.
Nem mesmo o advogado, que o defendia com calculado empenho, que parecia acreditar na sua inocência, poderia entendê-lo. O réu percebeu que não seria possível transmitir toda a realidade do seu crime. Sentiu-se sozinho novamente. Era uma solidão de corpo e de alma que o transfixava de cima a baixo, feito uma dor fina que doía e entediava ao mesmo tempo, e da qual não podia esquivar-se.
Articulou desordenadamente algumas ideias no seu cérebro nervoso, mas não encontrava uma forma adequada para exprimi-las numa versão que lhe fosse mais favorável. As ideias atropelavam-se. O juiz esperava a resposta final, a última. O advogado dirigiu-lhe um olhar sem expressão. Com o semblante atravessado por um ar de dúvida, de insegurança, como quem vacila entre a fala e o silêncio, balançou negativamente a cabeça. O juiz, levantando-se, ordenou ao escrevente que mandasse entrar o próximo acusado, para a próxima audiência…