Morrer muitas vezes

 

Há muitas mortes a antecederem a morte final. Isso mesmo, pode-se morrer muitas vezes ao longo da vida, antes da morte física e fatal, antes daquela que costumamos enxergar como a única, a última, a “autêntica”, isto é, a morte do corpo. Pode-se, portanto, morrer antes da morte.

Ainda que estejamos sempre a negá-lo, muitos sabem que as dores e as perdas, pelo acidentado caminho do mundo, constituem já alguma forma de morrer-se um pouco. A morte dos que nos cercam é também um pouco, ou muito, da nossa própria morte. Há ainda a morte da subjetividade, isto é, a morte do próprio “eu”, que se pode dar tanto por algum transtorno cognitivo quanto, cedo ou tarde, pela demência completa. A morte dos sonhos e das ilusões é uma espécie de morte prematura do porvir, isto é, daquilo que poderíamos vir a ser. A morte do desejo, além da morte do prazer, é a morte da própria possibilidade de se criar a vida. Mesmo já próximo do momento fatal, ainda pode-se morrer mil vezes, aos poucos, pela tenaz que mina o corpo lenta e dolorosamente.

É trágico morrer muitas vezes antes da morte; é absurdo que as mortes sejam tantas enquanto a vida é uma só. É mais absurdo ainda que a vida e a morte só se constituam, reciprocamente, numa dialética sem sentido entre o nada e o nada.

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