Digníssima Vice-diretora da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Unesp/Franca.
Demais professores,
Autoridades presentes,
Senhores pais,
Caros bacharéis,
Minhas senhoras, meus senhores,
Em primeiro lugar, faço questão de dizer que estou profundamente honrado pela escolha do meu nome para ser o patrono desta XXIV Turma de Direito da Unesp: tenho poucos méritos para tamanha honra! Especialmente agradecido, espero andar à altura do título que estes bacharéis me outorgaram com tanta generosidade.
Nesta hora de festa - que é também de despedida -, quero saudar estes meus alunos, agora ex-alunos, dizendo-lhes da profunda admiração, e do respeito, que tenho por todos eles, seja pelo enorme potencial de cada um (e de cada uma), seja pela competência e pelo brilho com que conquistaram este título que ora celebramos, seja ainda pela formação diferenciada que souberam desenvolver aqui no Curso de Direito da Unesp.
Já tive oportunidade de destacar nesta mesma tribuna que a qualidade da formação jurídica proporcionada aos estudantes da Unesp de Franca é realmente diferenciada. Pois, neste curso de direito o ensino das habilidades profissionalizantes, de natureza técnico-dogmática, conjuga-se fortemente com o conteúdo crítico e com a dimensão humanística de várias disciplinas, o que (é bom que se diga) nem sempre se vê por aí, no âmbito do ensino jurídico em geral.
É justamente a boa formação profissional e o desenvolvimento de uma consciência crítica que fazem com que os bacharéis desta Casa saibam reconhecer os seus respectivos papéis na sociedade, proporcionando-lhes ainda os recursos necessários para uma consciente tomada de posição diante dos problemas fundamentais da vida social e política neste sofrido país.
Não tenho dúvida de que essa formação qualificada dos alunos desta Faculdade deve-se, fundamentalmente, a três fatores: (1) primeiro, ao ambiente livre do campus de Franca que tanto favorece a pluralidade do pensamento; (2) segundo, à plena autonomia dos estudantes para a realização, por eles próprios, de eventos científicos e culturais, como semanas jurídicas, seminários, simpósios e até congressos, em que têm toda a liberdade para definir os temas, os conteúdos, os nomes dos palestrantes e até a duração e o formato dos eventos; (3) por último, creio que a formação diferenciada na Unesp se deve também à participação espontânea dos alunos em diversos grupos de estudos constituídos no interior do campus, e que tanto têm estimulado o amadurecimento intelectual dos estudantes, o pluralismo das ideias, a crítica e o conhecimento interdisciplinar.
Aliás, em tema de interdisciplinaridade, creio que o campus da Unesp de Franca é realmente privilegiado, pois temos aqui quatro cursos da área das ciências humanas com forte potencial para desenvolver o intercâmbio dos saberes. Intercâmbio que sem dúvida deve enriquecer a formação jurídica de nossos alunos, proporcionando-lhes um conhecimento mais amplo e mais enciclopédico, pois, como já disse certo filósofo do direito, “ser apenas jurista é ser pobre e triste coisa”.
De minha parte – e creio que neste ponto expresso o sentimento de todo o corpo docente do Curso de Direito da Unesp –, devo dizer que tenho muito orgulho por ter participado, embora de maneira modesta, do projeto pedagógico que certamente garantirá a estes bacharéis um papel de destaque na vida profissional, bem como a formação necessária para o exercício consciente da cidadania política.
Neste momento, prevalecendo-me do honroso cargo de Patrono desta Turma, e na condição do professor que fala aos seus alunos pela última vez, quero dirigir-lhes algumas palavras sobre três coisas que considero oportuno abordar nesta hora de despedida. Como se fosse a última aula, quero lhes falar rapidamente sobre o DIREITO, sobre o FUTURO, e sobre a FELICIDADE.
O DIREITO, meus caros alunos, não está nem nunca esteve fossilizado nos Códigos ou nos textos legais. O direito está na vida, ou melhor, na dinâmica da vida. O direito é produto de uma luta incessante, como já o dissera o grande jurista alemão Rodolfo von Ihering. É o resultado da luta para inserir o direito na lei; da luta para assegurar a aplicação efetiva da lei; da luta para expandir a lei para todos; e, finalmente, da luta para que o autêntico direito não seja revogado nem retirado dos textos legais.
Notem que o direito não se resume a um conjunto inerte de normas, mas resulta, isto sim, de um processo dinâmico de construção. Ou seja, o direito não é um “dado”, ele é um “construído”. Como diria o antigo mestre da UnB, o professor Roberto Lyra Filho, “o direito é um eterno devir”, algo que se constrói permanentemente. Enfim, o direito que dorme nos Códigos e na letra fria da lei não é nada sem a luta, de modo que o direito será exatamente aquilo que fizermos com que ele seja: justo ou injusto, bom ou mau, certo ou errado, instrumento de liberdade ou de opressão, instrumento de repressão ou de libertação humana. O direito é como a vida, tem de ser construído diariamente, com luta, com suor, com dor, com incertezas, com angústias, mas também com justiça, com liberdade, com esperança, e, sobretudo, com a dignidade que é capaz de emancipar o homem.
Acerca do FUTURO, quero dizer-lhes brevíssimas palavras. Diz um ditado muito antigo que “o futuro a Deus pertence”. Não pretendo, evidentemente, desmentir a sabedoria popular, mas penso que o futuro pertence, sobretudo, ao próprio homem, a cada um de nós que o devemos construir. O filósofo francês João Paulo Sartre, acreditava que o homem é essencialmente livre, e que a essência dele depende das escolhas que faz ao longo da vida.
Esse filósofo dizia que, no fundo, todo homem é um projeto inacabado, pois estamos sempre projetando e nos projetando no futuro, e por isso mesmo é que estamos irremediavelmente condenados a fazer escolhas pela vida afora. Assim, o vosso futuro de juristas dependerá, inevitavelmente, das oportunidades e das escolhas que fizerem no curso da vida profissional. Por isso, cuidem bem, como já o disse certa vez o nosso memorável Ruy Barbosa, ireis exercer a profissão da justiça num país onde verdadeiramente não há justiça. E é num contexto assim que os senhores deverão fazer as vossas escolhas.
E nesse contexto, poderão utilizar o direito como simples mecanismo de controle ou como instrumento de libertação; como mecanismo de manutenção da ordem injusta ou como instrumento de transformação dessa ordem; como arma que liberta e promove o homem ou como a arma que oprime e mata. É de escolhas como essas que serão construídos a vossa essência de juristas e o vosso futuro profissional, futuro que se avizinha com tantos desafios e tantas responsabilidades.
Por fim, quero dizer-lhes apenas duas palavras sobre a FELICIDADE.
Primeiro, digo que ela definitivamente não existe. Em seguida, digo que, se a felicidade não existe, então ela deve ser inventada e construída. E a felicidade, tal como o direito e o futuro, é também uma construção que se faz a partir das nossas escolhas. Escolhas que, como todos sabemos, muitas vezes são fontes de angústia, porque escolher um caminho quase sempre significa aniquilar a possibilidade de seguir em outras direções. O que desejo a todos vocês, caros bacharéis, não é simplesmente a felicidade, mas, isto sim, que saibam inventá-la e construí-la com independência, com liberdade responsável, com confiança, e, sobretudo, com dignidade.
É hora de encerrar. E o faço da forma como comecei: agradecendo-lhes sinceramente a amizade, a tolerância e a compreensão. Peço desculpas, publicamente, por alguma falha, por algum exagero. Despeço-me, enfim, num fraterno abraço, desejando a todos muito êxito na profissão, muita coragem e muita sorte na vida.
Franca, 12 de janeiro de 2012.